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OH AIR THAT BREATHES ME!

More than ever, it is necessary to do away with paralyzing fear, expand the heart and mind and create new solutions.

In a time when you live virtually, ignoring the preciousness of direct relationship with the other, it is ironic that you must now use virtual resources, wisely, so as not to suffer from morbid isolation. Apparently, you have to lose, to value. You have to be faced with our maximum fragility, with the imminence of dying asphyxiated, to finally hear the groans of the abused planet.

Life is truly ironic. For years we have seen the scourge of fires that have been progressively killing the lungs of the planet. Now, we are the ones who see our own lungs threatened.

The paradox of life is at times masterful in creativity!

So much have we distanced ourselves emotionally from each other that we now find ourselves forced to flee from each other, weeping at the pains of not being together. And that is what will save us all. We are going to miss each other and, above all, need each other so that we can survive as a species. Yes, because the planet will be able, through its mysterious intelligence, to resist and reinvent itself. As for us, if we do not change behaviours and do not tune in with the heart, we may well, one of these days, be dismissed from paradise, but not because of the coronavirus, but because of our particular talent for destroying our own immune system.

I question if we are aware of the millions of children who die of hunger every day, the daily numbers of deaths from stroke and cancer, malaria, suicide and many other sorts of virulence. The number of deaths that have occurred in the world so far, due to coronavirus, is negligible in relation to all this. I am not the one who says it, the numbers do.

I also question if we have already stopped to think that the consumption of tobacco, alcohol, sugar, flour and other refined products, processed products, soft drinks, and so on, are at the base of the destruction of the immune system?!

And why do we believe that the poisons used in agriculture only kill bugs and nothing will happen to us?!! How come we do not realize that our body is being poisoned?! So much omnipotence and dissociation in the supposedly most evolved species on the planet!!!

I also ask if you do not find it strange that, with so much information out there, it is not yet known that living in daily stress, for hours on end, inside companies and offices, as if there were no tomorrow, family and children, destroys our joy, bonds and health?! I challenge all of us to read a chapter on psychosomatics and psychoneuroimmunology daily.

There are people who do not sleep or sleep little. Don’t we all know that nights were meant to sleep and regenerate? The doctors tell us to rest and sleep early when we have some disease. I wonder why? What part haven’t we figured out yet? Isn’t it better to prevent diseases?

I have always liked trees, wasteland, land, water from the rivers and sea, and I have always cried when seeing them suffer. I come from a mistreated, abused land, due to its huge beauty and natural wealth, by greedy and dishonest governments, up until the time of the total extinction of the animals that lived happily in the savannah.

It is because of these and many other virulent attitudes that Man has been making the air unbreathable! It is possible that this pandemic is just a strategy of the Universe so that the dust that has been hidden under our carpets comes to light, to be finally cleaned, swept and integrated. I have no doubt that we have entered the era of the collective, of solidarity, of compassion, of emotional intelligence. Values ​​must change!

Have we already stopped to think about what it means to breathe?

Inhale. Exhale. When you breathe, space is created inside the body, blood circulation is started and this is how the organism feeds itself and works. And it takes time. Breathing well is having space and time. In order to create space, you need to be angry enough to shout the freedom cry. This hectic life of doing, doing, doing, working for hours on end, sleeping little so as not to lose the business of millions or to take advantage of all the minutes to gather more information, and to eat badly, without criteria, is basically living to consume personal resources and energy, until its extinction. That is to say, surviving.

This pandemic has come to tell us that now we need to learn how to live!

Curiously enough, humanity has prioritized money and consumption, based on fear of scarcity. Now, it is possible that we will all consume less and earn less money, but with more abundance. Life is indeed an abundance and it is with this thought that bread multiplies.

Love and solidarity are good for the immune system, they are powerful antivirals and turn scarcity into prosperity. You must not forget this!

The greatest sadness is the lack of love, coherence and pleasure in living. Lack of love is the loss of contact with the laws of nature, it is lack of centre, intelligence channelled into maintaining our integrity!

More than ever, movement is needed. Do not stop. Move your body, relax, breathe, strengthen your muscles, mind and spirit, and get rid of self-limiting objects, attitudes and beliefs.

There is already information enough. We now need to integrate knowledge and create new structures that serve the needs of humanity.

The body, mind, heart and spirit need to be integrated! That surely is a laser beam of wisdom and effectiveness!

                                                                                                                                  17th March 2020

Ó AR QUE ME RESPIRAS!

Mais do que nunca, é preciso sair do medo paralisante, expandir o coração e a mente e criar novas soluções.

Numa era em que se vive virtualmente, ignorando a preciosidade da relação direta com o outro, não deixa de ser irónico termos agora que aprender a usar, com sabedoria, os recursos virtuais, para não padecermos de isolamento mórbido. Pelos vistos, é preciso perder, para dar valor. É preciso depararmo-nos com a nossa máxima fragilidade, com a iminência de podermos morrer asfixiados, para escutarmos finalmente os gemidos do planeta maltratado.

A vida é mesmo irónica. Há anos que assistimos ao flagelo dos incêndios que vêm progressivamente matando o pulmão do planeta. Agora, somos nós que vemos ameaçados os nossos próprios pulmões.

O paradoxo da vida chega a ser de uma criatividade magistral!

Tanto nos temos afastado afetivamente uns dos outros que agora nos vemos obrigados a fugir uns dos outros, chorando as penas de não estarmos juntos. E é isso que nos vai salvar a todos. Vamos sentir falta uns dos outros e, sobretudo, precisar uns dos outros, para podermos sobreviver como espécie. Sim, porque o planeta conseguirá, pela sua inteligência misteriosa, resistir e reinventar-se. Já nós, se não mudarmos comportamentos e não nos sintonizarmos com o coração, podemos bem, um destes dias, ser dispensados do paraíso, mas não por causa do coronavírus, e sim, por causa do nosso particular talento para destruir o nosso próprio sistema imunitário.

Eu pergunto se estamos conscientes dos milhões de crianças que morrem à fome diariamente, dos números diários de mortes por AVC e cancro, malária, suicídio e muitas outras virulências. O número de mortes que ocorreram no mundo até agora, por coronavírus, é ínfimo em relação a tudo isso. Não sou eu que digo, são os números.

Eu pergunto também se já parámos para pensar que o consumo de tabaco, álcool, acúcar, farinhas e outros produtos refinados, produtos processados, refrigerantes, etc., estão na base da destruição do sistema imunitário?!

E por que é que achamos nós que os venenos que se usam na agricultura só matam os bichos e a nós não acontece nada?!! Como é que não percebemos que o nosso corpo está a ser envenenado?! Tanta omnipotência e dissociação na espécie supostamente mais evoluída do planeta!!!

Pergunto também se não acham estranho que, com tanta informação à solta, ainda não se saiba que viver em stress diário, horas a fio, dentro de empresas e escritórios, como se não houvesse amanhã, família e filhos, nos vai destruindo a alegria, os vínculos e a saúde?! Convido todos a lermos, diariamente, um capítulo sobre psicossomática e psiconeuroimunologia.

Há quem não durma ou durma pouco. Não sabemos todos que as noites foram feitas para dormir e regenerar? Os médicos mandam-nos descansar e dormir cedo, quando tempos alguma doença. Por que será? Qual é a parte que ainda não percebemos? Não será melhor prevenir a doença?

Sempre gostei de árvores, mato, terra, água dos rios e do mar, e sempre chorei ao vê-los sofrer. Venho de uma terra maltratada, abusada, pela sua enorme beleza e riqueza natural, por governos gananciosos e mal formados, até ao desaparecimento total dos animais que viviam felizes na savana.

É por causa destas e de muitas outras atitudes virulentas que o Homem tem vindo a tornar o ar irrespirável! É possível que esta pandemia seja apenas uma estratégia do Universo para que a poeira que tem andado escondida debaixo dos nossos tapetes venha a lume, para ser finalmente limpa, varrida e integrada. Não tenho dúvidas de que entrámos na era do coletivo, da solidariedade, da compaixão, da inteligência emocional. Os valores têm inevitavelmente que mudar!

Já parámos para pensar no que significa respirar?

Inspirar. Expirar. Quando se respira, cria-se espaço dentro do corpo, põe-se em marcha a circulação sanguínea e é assim que o organismo se alimenta e funciona. E leva tempo. Respirar bem é ter espaço e ter tempo. Para criar espaço é preciso ter raiva suficiente para dar o grito de liberdade. Esta vida agitada de fazer, fazer, fazer, trabalhar horas a fio, dormir pouco para não perder o negócio de milhões ou para aproveitar os minutos todos para recolher mais informação, e comer mal, sem critério, é basicamente viver para consumir os recursos pessoais e energéticos, até à sua extinção. Ou seja, é sobreviver.

Esta pandemia veio dizer-nos que agora precisamos de aprender a viver!

Curiosamente, a humanidade tem priorizado o dinheiro e o consumo, com base no medo da escassez. Agora, é possível que venhamos todos a consumir menos e a ganhar menos dinheiro, mas com mais abundância. A vida é mesmo uma abundância e é com este pensamento que o pão se multiplica.

O amor e a solidariedade fazem bem ao sistema imunitário, são poderosos antivirais e transformam a escassez em prosperidade. É preciso não esquecer isto!

A maior tristeza é a falta de amor, de coerência e de prazer de viver. Falta de amor é a perda de contacto com as leis da natureza, é falta de centro, de inteligência canalizada na manutenção da nossa integridade!

Mais do que nunca, é preciso movimento. Não estancar. Mexer o corpo, soltar, respirar, fortalecer os músculos, a mente e o espírito, e desfazermo-nos de objetos, atitudes e crenças autolimitantes.

Já há informação suficiente. Falta agora integrar o conhecimento e criar novas estruturas que sirvam as necessidades da humanidade.

Falta integrar o corpo, a mente, o coração e o espírito! Isso sim, é um raio laser de sabedoria e eficácia!

17 de março, 2020

INNOCENT WHEN YOU DREAM

Innocent when you dream é o título de uma música maravilhosa de Tom Waits. Roubei o nome para dar voz ao texto que se segue.

Não sou daqui nem dali, venho de outro lugar. Tenho por hábito bater com os pés no chão, levantando sonhos.

Não sigo o fado, sigo o rasto da curiosidade, caindo e levantando-me de sucessivas ilusões.

A vida é isto, uma viagem à procura do Self, um enigma que se vai resolvendo, uma colheita de bênçãos, sempre à mercê da imprevisibilidade das experiências.

Choro e rio à frente do espelho, para captar melhor o entendimento das coisas.

Danço para movimentar a minha alma feliz, soltando emoções no espaço entre mim e as pessoas.Toco música para atrair corações afins, como fazem certos animais quando vocalizam para chamar os seus pares e as suas crias.

Faço tudo isso, também sozinha, numa conversa animada entre mim e o Universo.

Tenho vindo a descobrir que as coisas mais bonitas são muito simples. Normalmente, não fazem barulho, chamando a atenção pela luz que irradiam. Solta-se uma espécie de leveza, numa longa e completa respiração…Ahh!

São esses, os melhores momentos. Aqueles, saboreados de olhos fechados, bem devagar, onde não há intervalos de tempo. Aqueles em que já se poderia morrer a seguir.

A vida é muito maior do que ser-se daqui ou dali. É um infinito surpreendente! Basta ser inocente e acreditar!

6 março, 20

VÓRTICE

Fui de viagem e perdi-me no caminho.

Escureceu de repente e, envolvida num vórtice de memórias passadas, esqueci-me de mim.

Ali fiquei às voltas, entontecida, torturada por monstros já velhos, sem rosto, rezando que alguém me viesse buscar.

Ninguém me buscou.

Fui salva pelo vórtice, pelos monstros e pela loucura que, entretanto, morreu de cansaço e de espanto.

És tu?

Que me aconteceu?

Estremunhada, ajeitei o cabelo e voltei à estrada.

Vi rostos familiares, sonhos em pausa, saudades à espera de serem sentidas.

Estavam todos ali afinal, de feições desanuviadas, sorrindo para mim.

Que te aconteceu?

Procurámos por ti!

31 jan, 20

 

O MANELINHO TÍMIDO E A MENINA INSEGURA

O Manelinho quer chamar, mas não chama.

Em vez disso, esconde-se atrás de vestes sóbrias para que ninguém dê conta dele e, pela calada da noite, coloca bilhetes ininteligíveis debaixo da porta da menina insegura.

A menina insegura fica confusa. Enganaram-se, se calhar. Não devia ser para ela. E segue o seu caminho, ficando no mesmo sítio, com uma sensação estranha. Seria para ela?

“Ela não gosta de mim. Não me quer ver. Recusou o meu convite. Não sabe ler os sinais. Não percebeu que sou eu?”, rumina o Manelinho.

De tempos a tempos, chegam sinais ambíguos, já sem vestes sóbrias, apenas com óculos escuros que protegem os olhos de revelar o coração. A menina insegura morre mais um bocadinho porque amor, aquilo não foi afinal.

O Manelinho insiste em saber da menina insegura. Sai durante a noite e procura ler nas estrelas quem é ela verdadeiramente. Procura informação em todas as fontes, menos chegar-se a ela e perguntar: olá, posso conhecer-te melhor?

E a menina insegura confirma que o Manelinho se desviou, mas que gosta dela, só um bocadinho.

 

Do cimo do monte há um corvo que observa e diz: Que grande mal entendido!

31 jan, 20

 

SER LIVRE DENTRO DO AMOR

Ser livre é não ter amarras.

Amarras são as nossas prisões mentais, tudo aquilo que nos mantém atrás, na imobilidade.

São circuitos de pensamentos sem corpo, perdidos no espaço, de olhar vazio.

São palavras presas na garganta, gestos retidos nos músculos, sufocados pelo medo.

Amarras são apegos ao passado, pela incapacidade de enterrar os mortos e dizer adeus.

É não perdoar a mãe. Não perdoar o pai. Não confiar em ninguém.

São corações fechados com medo de amar, gritos calados no fundo do corpo.

É a alma perdida em busca do abraço quente da terra húmida e doce.

São dúvidas amontoadas em cima de mágoas, transformadas em certezas perigosas. Muito perigosas.

Amarras são gritos de socorro, para dentro, que nos roubam saúde e paz.

É viver dentro de gaiolas douradas.

É achar que não há ninguém.

É sofrer sem significado.

É confundir desapego com autocomplacência e ter perdido a inocência de correr atrás.

É deixar-se endurecer, perder a habilidade das linhas curvas, do prazer de viver, de dar e receber.

É fugir, pensando que se vai em direção à liberdade.

VIVER SEM AMARRAS É CONSTRUIR UM CHÃO SEGURO DE AFETOS, PARA DELE NOS LANÇARMOS NOS NOSSOS VOOS.

É SER LIVRE DENTRO DO AMOR.

30 jan 20

 

SE O ARREPENDIMENTO MATASSE

“A angústia de Matilde não passara com o tempo.

– Não me conformo… o que fiz eu? – chorava Matilde, inconsolável.

– Não confundas a realidade, Matilde! – dizia a mãe, já mais firme do que terna –Dá tempo ao tempo. Os temas importantes da vida, quando inacabados, voltam sempre à carga, para serem fechados ou abertos. Ou, então, encurta o tempo e dá um passo. Sai desse circuito fechado pouco saudável. – continuava a mãe, num tom elevado.

Matilde arregalou os olhos perante a lucidez da mãe e a sua própria inquietação.

– Por muito certo que seja um assunto, por muito justas que sejam as palavras, elas devem ser comunicadas presencialmente, olhos nos olhos. Entende, mãe? – insistia – É isso que me mata!

Matilde tinha ousado esclarecer um assunto importante com o seu namorado, por telefone, interrompendo-se a comunicação por algum tempo. Tinham-se passado quase 3 meses e a falta de olhar e de mãos daquele momento convertera-se numa espera dolorosa.

Matilde era uma mulher exigente consigo mesma. Por trás das suas atitudes assertivas, havia uma pessoa vulnerável e preocupada com o sofrimento dos outros. Passou quase três meses a morrer de arrependimento, apesar de segura das suas nobres intenções. Apenas queria dar espaço a que um certo ciclo se encerrasse, protegendo com unhas e dentes a integridade da nova relação. Era uma mulher leal e profundamente idealista, e o sofrimento dos últimos tempos ensinara-lhe que “o tudo ou nada da sua vida” tinha que morrer e ser transformado em emoções mais brandas e realistas.

Munida de coragem, decidiu quebrar o silêncio, precipitando um encontro. Que seria dela, sem aquela mãe lúcida e esclarecida!?

Não sabia o que iria acontecer, mas sabia que, pondo palavra nos silêncios, um rumo mais tranquilo seria dado à sua vida.” (excerto de um pequeno conto)

As histórias de vida são joias que gosto de partilhar, pelas lições que encerram. Muita gente se revê nos contos que escrevo. Nem eu às vezes sei a quantas dezenas de pessoas me dirijo, sem querer.

Este pedaço de conto remete-me para as armadilhas dos tempos modernos, onde cada vez mais nos escondemos atrás de uma realidade virtual, por medo de exposição a emoções intensas. Os assuntos importantes precisam do calor presencial e de feedback imediato. O isolamento emocional pode conduzir as pessoas à depressão.

Remete-me também para o perigo de algumas palavras, quando proferidas fora de uma situação de contacto securizante. Em alguns casos, os interlocutores podem ficar entregues ao abandono, a pensamentos destrutivos e a interpretações perigosamente subjetivas daquilo que foi dito.

Remete-me para o significado do “tudo ou nada”. Entendo a preocupação de Matilde.

É possível que “o tudo ou nada” seja injusto para todos nós, porque somos humanos, inacabados, vulneráveis, com necessidade frequente de voltar atrás para fazer melhor. É assim a vida. Um processo em espiral, com retornos à sombra, para voltar à luz com mais força. O tudo está cheio de imperfeições e o nada tem sempre uma pequena vida a despontar.

A verdade é incompleta, está sempre em transformação. Aquilo que sempre foi verdadeiro para Matilde, parece converter-se agora, perante a experiência de dor, em algo mais redondo, sem arestas. Sem perder a convicção de que é preciso estar-se inteiro nas escolhas, aprendeu um pouco mais sobre a sua vulnerabilidade e que a humildade é a pedra de toque do crescimento.

Há uma Matilde dentro de muitos de nós. A partir desta história verdadeira, chamo a atenção para quatro asserções de extrema importância:

– É urgente sair do isolamento e pedir ajuda.

– É preciso sair da anestesia afetiva que nos impede de viver com inteireza as nossas relações.

– Antes de assumir uma posição, é recomendável meditar um pouco sobre a nossa capacidade de a sustentar.

– Quando se fala de amor, é imperativo voltar às conversas com voz, olhar e toque.

Espero que Matilde regresse ao equilíbrio, muito em breve.

24 jan, 20

TRUZ TRUZ, IMPORTA-SE?

Há uma arma poderosa que se chama contratransferência corporal. O que é isto? Basicamente, é a capacidade de sentir, no nosso próprio corpo, aquilo que nos chega dos outros. É uma arma poderosa, dizia eu, e pode ser incómoda também, quando não podemos fazer uso desse poder. Acontece-me frequentemente, sobretudo fora do contexto terapêutico. Aqui, curiosamente, é tudo mais fácil porque há acordo entre as partes sobre o levantar de todos os véus, com vista ao crescimento desejado.

Não se pode chegar a qualquer pessoa, assim sem mais nem menos, e fazer-lhe a leitura do que se passa com ela e das consequências que isso pode ter na sua relação com os outros. Sujeitamo-nos a levar um empurrão ou uma resposta torta. “Alguém lhe perguntou alguma coisa? Cada um sabe de si e Deus sabe de todos!”

“Desculpe”.

Se a informação fosse suficiente para produzir conhecimento e mudança, bastaria traduzir por palavras o que tantas vezes recebo no meu corpo. Com os nós dos dedos, bateria delicadamente à porta das costas da pessoa, e diria assim:

“Truz truz, importa-se? Sabia que está com o corpo todo bloqueado, de uma raiva com barbas brancas, e se calhar é por isso que a senhora tem os lutos todos por fazer? Adianta pouco andar às voltas na cabeça, a tentar compreender o que se está a passar consigo. Experimente, em vez disso, gritar, dizer impropérios, bater com a porta ou dar um murro na mesa, tomar uma posição, em vez de estar à espera que a outra pessoa concorde consigo. Autorize-se a libertar esse peso do seu corpo. Se não conseguir sozinha, aconselho-a vivamente a fazer terapia, mas corporal, para poder aceder à sua verdadeira fonte de autoconhecimento. Passam-se os anos e poderá estar a perder tempo e oportunidades. Oportunidades? Sim, oportunidades. Com esse corpo sufocado de emoções recalcadas, não tem espaço para incorporar o prazer na sua vida. Enquanto não deitar cá para fora anos e anos de zanga, anos e anos de passividade, anos e anos de desqualificações, incompreensão, medo, carência e solidão, não conseguirá chorar tudo o que tem para chorar e dar valor aos privilégios que tem na vida. Quais privilégios? A sua inteligência, por exemplo, os seus talentos, a sua capacidade para fazer dinheiro e amigos, aquele homem que você diz que é maravilhoso, o sol deste país, a sua casa bonita, o mar, a serra, o seu carro, a sua saúde de ferro. Mas cuidado! Trate bem da sua vida emocional, não vá a energia estagnar, e ficar doente! Peço desculpa por ser tão bruta, mas conheci uma pessoa que era um leão, um cavalo de força, um poço de saúde e que, por ter uma cabeça casmurra e falta de humildade, aniquilou, até à morte, os seus recursos energéticos. Peço desculpa mais uma vez por estar a ser tão bruta, mas é assim que o seu corpo está a interferir com o meu. Estou apenas a traduzir o que vem daí. Se quiser o contacto de uma colega, dou-lhe já. Mas, por amor de Deus, saia da cabeça, largue o ipad e vá a correr tratar de si!”

Quando é que as pessoas se convencem que as emoções têm que entrar em circulação, sob pena de ficarem estagnadas no corpo e provocarem aquilo que se chama de estase (estagnação energética)?

“Truz truz, sabia que a estase está na origem de todas as doenças? Há tanta informação à solta acerca disso…! Não duvido que possua essa informação, mas talvez só na cabeça. Não sabe no corpo, não sente. Não sente porque está desconectada de si própria, e é exatamente por isso que a informação não surte efeito. Sem corpo não há verdadeiro conhecimento! Sugiro que largue o ipad e vá até à beira-mar respirar fundo, mas fundo mesmo! Expirações profundas até perder o fôlego. Depois inspire novamente, e assim sucessivamente. Veja se consegue não ir ver as mensagens durante uma hora que seja. Não vai perder nenhum negócio só por estar a viver um bocadinho. E, se perder, é porque esse negócio não valia a pena. Tudo o que nos tira um bocado de vida, vale pouco a pena. Já agora, também há muita informação acerca do facto da estase afetar as nossas relações. Se a sua energia está estagnada na zona lombar, no diafragma, nos braços, na garganta, nas pernas, eu sei lá, não vai conseguir comunicar convenientemente as suas intenções, abraçar, reclamar os seus direitos, olhar com olhos de ver, sair da mira dos predadores, amar, estar ali inteira! Não se admire de só atrair pessoas tóxicas e de achar que a sua vida pessoal é uma tragédia grega. Pense bem nisso!

Truz truz, e já agora, abandone essa crença pessimista de que a vida é uma fatalidade contra a qual não há nada a fazer! Há sim, e muito! Bem sei que há muitas injustiças, pessoas boas que morrem, guerras e roubos. Mas se aprender a enquadrar o significado da dor, vai deixar de ser uma mártir e de rejeitar as fontes de abundância. Peço desculpa por estar a ser tão bruta!

Truz truz, não se esqueça que está na hora de pedir um abraço. Saia desse isolamento e vá buscar o que tanto precisa. Eu? Sim, você. Está com o corpo todo bloqueado, respira mal, tem poucos abraços, pouco amor e pouco sexo, só trabalha, acode aos aflitos como se fosse uma bombeira, e depois não quer ficar doente! Já agora, pare também de se sentir culpada por tudo e por nada, pelas pessoas que sofrem, pelas crianças que choram, pelas cheias que assolam o país, por estar viva. Você merece ser feliz e não tem culpa que os outros não tenham capacidade para ser felizes e prósperos. Trate de agarrar o touro pelos cornos, seja feliz, tenha prazer porque, dessa maneira, estará seguramente a aumentar a massa crítica do mundo, a vingar aqueles que não souberam viver e a contribuir para a felicidade universal.

Se não acredita em mim, vá ler artigos da especialidade, mas só um bocadinho! A seguir, vá a correr pedir um abraço. Vários. Muitos e demorados. Com isso, saberá de imediato, no sangue feliz que lhe corre nas veias, o que vale realmente a pena!”

O que está aqui dito por palavras nuas e cruas pode levar meses ou anos a ser consciencializado pelas pessoas. É este o meu trabalho. Ensinar a ler o corpo, conduzir as experiências, validar, esperar, aceitar. Ser terapeuta pode ser uma forma de amor incondicional porque tem, como requisito, a inteligência de respeitar o timing e os limites das pessoas, sem desistir.

Na nossa vida pessoal, por causa da intensidade das paixões, apegos e urgências, o exercício é mais difícil, mas é o caminho mais justo e vale a pena. O universo é sábio e traz todas as respostas e recompensas.

Ainda assim, há palavras com muito corpo, com uma força tal, que podem deixar uma semente fértil no coração de alguém… “Truz truz, importa-se? “

17 jan, 20

PÉ DE ORELHA OU INTIMIDADE

 

Observo muito, todos os dias. Tenho um impulso muito grande para ajudar, que fui refreando ao longo dos anos. Hoje, limito-me a ficar atenta, de braços abertos, pronta a agir, se alguém estender a mão. É contraproducente anteciparmo-nos às pessoas, a menos que estejam à beira do precipício. Aí, sou veloz como a chita. É muito delicado interferir no processo delas. Cada uma tem o seu ritmo e o seu limiar de perceção. Um toque mal dado pode levar alguém a fechar-se ainda mais. Por isso, espero por sinais claros.

Isto tudo, a propósito do que tenho vindo a observar em algumas relações de amizade e de casamento.

Muitas pessoas não conseguem estar sozinhas porque o vazio faz vir à tona histórias passadas mal resolvidas, carências e memórias difíceis. Observo, frequentemente, que essa busca incessante de companhia é inversamente proporcional à intimidade construída. Pois é. Quem não sabe estar consigo mesmo, não sabe também estar em relação, porque estar em intimidade com alguém é estar em contacto com emoções, necessidades e desejos, nossos e dos outros.

Como é que isto acontece? Eu explico. Para algumas pessoas, a carência é um buraco que precisa, a todo o custo, de ser tapado. Basta-lhes ter companhia, uma troca de presença física e uma orelha para acolher as histórias diárias, desde que os deixem em paz, no seu isolamento emocional. Já bastaram o excesso de controlo da mãe ou do pai, e as primeiras desqualificações e rejeições. É claro que nada disto é consciente. O problema reside no facto de inúmeras pessoas desconhecerem os seus padrões de fuga ao contacto mais profundo. Essas defesas aparecem silenciosamente, fazendo repetir-se a história, conduzindo novamente a desilusões amorosas e solidão. Portanto, a carência retroalimenta-se a si própria: conduz à busca desesperada de companhia, mas, para não sofrer novamente os mesmos dramas, a pessoa resguarda-se emocionalmente da outra, criando isolamento afetivo. Há muita gente a viver assim, em família. Falam de tudo, mas ao lado do que é preciso, só para não serem apanhados olhos nos olhos. Para algumas destas pessoas, é suficiente a presença de uma orelha disponível.

Vou dar o exemplo da Lídia. Alienada dos seus próprios sentimentos de abandono, projeta tudo isso nos outros, buscando resgatá-los, quando é ela que tem fortes dependências afetivas. É uma espécie de boa samaritana, ajudando este e aquele amigo, este e aquele namorado, este e aquele desconhecido. Só não se resgata a si mesma. Dá, dá, dá, e não se põe a jeito para receber, gerando desequilíbrios em todas as relações. O cansaço instala-se, e é de tal ordem, que resolve o assunto fechando o coração dentro de uma armadura. Depois do último divórcio, devotou a sua vida a superproteger as filhas, encurralando-as numa dependência doentia.

Nestes casos, ao fim de muitas desilusões, pode acontecer uma de duas coisas: desenvolver-se comportamentos aditivos, para não sentir a carência (sexo sem compromisso emocional, trabalho em excesso, viver para os outros, drogas, etc.); ou fazer uma introspeção séria (terapia, por exemplo) para ir à raiz do problema, abrir o coração e recuperar o amor próprio. Voltando à Lídia, era preciso que ela fosse ao fundo do seu abandono, ao seu corpo de dor, e resgatar-se. Só assim, aprendendo a olhar para as suas necessidades profundas, poderia libertar-se do papel de salvadora e construir uma relação nutritiva com alguém.

É um desperdício transformar as relações em palcos tão pobres de partilha! Observo, com alguma preocupação, que algumas pessoas controlam os relacionamentos através do dar, garantindo assim a presença do outro. Outras, pela vitimização manipuladora. Outras ainda, pela atitude de agradar, ficando à mercê da vontade de alguém. No entanto, ao jantar, os olhos não se cruzam, os assuntos não são íntimos, e o telemóvel ganha destaque. Não há encontro.

Nem de propósito, dobrava eu a esquina da minha casa, quando uma vizinha, moça com pouco mais de 30 anos, me intercetou, muita aflita:

– Sei que a vizinha é psicóloga…

– Sim… – balbuciei, surpreendida.

– Preciso muito de ajuda… é por causa do meu namorado – e desatou a chorar abraçando-se a mim.

Alguns dias depois da nossa conversa, tive curiosidade em saber como é que ela estava.

– Ele voltou… – disse ela, com um sorriso de orelha a orelha.

– Chegou a telefonar à minha colega? – perguntei.

– Não. Já não é preciso.

– Deixe-me dizer-lhe uma coisa. – tentei eu, mais uma vez. – Se não resolve a sua questão de fundo, ela bater-lhe-á à porta, novamente.

O resto, não é necessário contar. O caso ilustra bem o texto que acabei de escrever.

Tanto é uma escolha livre, fugir de si mesmo, perpetuando a vítima, como o é, arregaçar as mangas e trabalhar corajosamente sobre os calcanhares de Aquiles. Esta última opção pode revolucionar a nossa vida, fazer-nos sair da mera necessidade de companhia e escolher criteriosamente a pessoa que queremos ao nosso lado, entrando no domínio das relações maduras, fontes de amor e crescimento mútuo.

21 dez, 2019

DIREITO POR LINHAS TORTAS

 – “És ímpar, minha filha. – afirmou a mãe, sem esconder algum orgulho.

Matilde deixou-se abraçar demoradamente, como há muito tempo não fazia. A sua vulnerabilidade deu-lhe direito a muitas festas no cabelo e a palavras carinhosas, cheias de pepitas de esperança.

Matilde é uma daquelas pessoas que larga o certo pelo incerto, para tentar salvar a pureza das coisas. Não negoceia o seu valor, mas vacila, como toda a gente, perante o vazio da perda.

– Fica tranquila – assegurou a mãe. – Só vejo bênçãos à tua espera. Nunca lamentes fazer o que está certo.

Matilde fechou os olhos e, exatamente ali, no peito quentinho maternal, adormeceu.” Excerto de um pequeno conto

 

É preciso ter coragem para ir ao fundo das questões. A busca de vivências inteiras é uma espécie de travessia no deserto, onde só a sabedoria permite povoá-la de esperança.

Quando se atinge um certo grau de consciência, a responsabilidade é maior. Já não é possível seguir o caminho mais fácil, ainda que este nos poupasse a muitos medos e incertezas.

Fazer o que está certo corresponde, muitas vezes, a mergulhar na solidão e confiar na mão generosa do universo.

Fazer o que está certo implica, frequentemente, deixar ir o controlo, em prol de um prazer maior, num futuro mais belo e promissor. É ter a coragem de caminhar sozinho, por linhas tortas, sem se perder o fio condutor das profundas convicções. É dar espaço e libertar alguém, por amor.

Fazer o que está certo é a forma mais rápida de se chegar onde se precisa de chegar.

14 dez, 2019