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TRUZ TRUZ, IMPORTA-SE?

Há uma arma poderosa que se chama contratransferência corporal. O que é isto? Basicamente, é a capacidade de sentir, no nosso próprio corpo, aquilo que nos chega dos outros. É uma arma poderosa, dizia eu, e pode ser incómoda também, quando não podemos fazer uso desse poder. Acontece-me frequentemente, sobretudo fora do contexto terapêutico. Aqui, curiosamente, é tudo mais fácil porque há acordo entre as partes sobre o levantar de todos os véus, com vista ao crescimento desejado.

Não se pode chegar a qualquer pessoa, assim sem mais nem menos, e fazer-lhe a leitura do que se passa com ela e das consequências que isso pode ter na sua relação com os outros. Sujeitamo-nos a levar um empurrão ou uma resposta torta. “Alguém lhe perguntou alguma coisa? Cada um sabe de si e Deus sabe de todos!”

“Desculpe”.

Se a informação fosse suficiente para produzir conhecimento e mudança, bastaria traduzir por palavras o que tantas vezes recebo no meu corpo. Com os nós dos dedos, bateria delicadamente à porta das costas da pessoa, e diria assim:

“Truz truz, importa-se? Sabia que está com o corpo todo bloqueado, de uma raiva com barbas brancas, e se calhar é por isso que a senhora tem os lutos todos por fazer? Adianta pouco andar às voltas na cabeça, a tentar compreender o que se está a passar consigo. Experimente, em vez disso, gritar, dizer impropérios, bater com a porta ou dar um murro na mesa, tomar uma posição, em vez de estar à espera que a outra pessoa concorde consigo. Autorize-se a libertar esse peso do seu corpo. Se não conseguir sozinha, aconselho-a vivamente a fazer terapia, mas corporal, para poder aceder à sua verdadeira fonte de autoconhecimento. Passam-se os anos e poderá estar a perder tempo e oportunidades. Oportunidades? Sim, oportunidades. Com esse corpo sufocado de emoções recalcadas, não tem espaço para incorporar o prazer na sua vida. Enquanto não deitar cá para fora anos e anos de zanga, anos e anos de passividade, anos e anos de desqualificações, incompreensão, medo, carência e solidão, não conseguirá chorar tudo o que tem para chorar e dar valor aos privilégios que tem na vida. Quais privilégios? A sua inteligência, por exemplo, os seus talentos, a sua capacidade para fazer dinheiro e amigos, aquele homem que você diz que é maravilhoso, o sol deste país, a sua casa bonita, o mar, a serra, o seu carro, a sua saúde de ferro. Mas cuidado! Trate bem da sua vida emocional, não vá a energia estagnar, e ficar doente! Peço desculpa por ser tão bruta, mas conheci uma pessoa que era um leão, um cavalo de força, um poço de saúde e que, por ter uma cabeça casmurra e falta de humildade, aniquilou, até à morte, os seus recursos energéticos. Peço desculpa mais uma vez por estar a ser tão bruta, mas é assim que o seu corpo está a interferir com o meu. Estou apenas a traduzir o que vem daí. Se quiser o contacto de uma colega, dou-lhe já. Mas, por amor de Deus, saia da cabeça, largue o ipad e vá a correr tratar de si!”

Quando é que as pessoas se convencem que as emoções têm que entrar em circulação, sob pena de ficarem estagnadas no corpo e provocarem aquilo que se chama de estase (estagnação energética)?

“Truz truz, sabia que a estase está na origem de todas as doenças? Há tanta informação à solta acerca disso…! Não duvido que possua essa informação, mas talvez só na cabeça. Não sabe no corpo, não sente. Não sente porque está desconectada de si própria, e é exatamente por isso que a informação não surte efeito. Sem corpo não há verdadeiro conhecimento! Sugiro que largue o ipad e vá até à beira-mar respirar fundo, mas fundo mesmo! Expirações profundas até perder o fôlego. Depois inspire novamente, e assim sucessivamente. Veja se consegue não ir ver as mensagens durante uma hora que seja. Não vai perder nenhum negócio só por estar a viver um bocadinho. E, se perder, é porque esse negócio não valia a pena. Tudo o que nos tira um bocado de vida, vale pouco a pena. Já agora, também há muita informação acerca do facto da estase afetar as nossas relações. Se a sua energia está estagnada na zona lombar, no diafragma, nos braços, na garganta, nas pernas, eu sei lá, não vai conseguir comunicar convenientemente as suas intenções, abraçar, reclamar os seus direitos, olhar com olhos de ver, sair da mira dos predadores, amar, estar ali inteira! Não se admire de só atrair pessoas tóxicas e de achar que a sua vida pessoal é uma tragédia grega. Pense bem nisso!

Truz truz, e já agora, abandone essa crença pessimista de que a vida é uma fatalidade contra a qual não há nada a fazer! Há sim, e muito! Bem sei que há muitas injustiças, pessoas boas que morrem, guerras e roubos. Mas se aprender a enquadrar o significado da dor, vai deixar de ser uma mártir e de rejeitar as fontes de abundância. Peço desculpa por estar a ser tão bruta!

Truz truz, não se esqueça que está na hora de pedir um abraço. Saia desse isolamento e vá buscar o que tanto precisa. Eu? Sim, você. Está com o corpo todo bloqueado, respira mal, tem poucos abraços, pouco amor e pouco sexo, só trabalha, acode aos aflitos como se fosse uma bombeira, e depois não quer ficar doente! Já agora, pare também de se sentir culpada por tudo e por nada, pelas pessoas que sofrem, pelas crianças que choram, pelas cheias que assolam o país, por estar viva. Você merece ser feliz e não tem culpa que os outros não tenham capacidade para ser felizes e prósperos. Trate de agarrar o touro pelos cornos, seja feliz, tenha prazer porque, dessa maneira, estará seguramente a aumentar a massa crítica do mundo, a vingar aqueles que não souberam viver e a contribuir para a felicidade universal.

Se não acredita em mim, vá ler artigos da especialidade, mas só um bocadinho! A seguir, vá a correr pedir um abraço. Vários. Muitos e demorados. Com isso, saberá de imediato, no sangue feliz que lhe corre nas veias, o que vale realmente a pena!”

O que está aqui dito por palavras nuas e cruas pode levar meses ou anos a ser consciencializado pelas pessoas. É este o meu trabalho. Ensinar a ler o corpo, conduzir as experiências, validar, esperar, aceitar. Ser terapeuta pode ser uma forma de amor incondicional porque tem, como requisito, a inteligência de respeitar o timing e os limites das pessoas, sem desistir.

Na nossa vida pessoal, por causa da intensidade das paixões, apegos e urgências, o exercício é mais difícil, mas é o caminho mais justo e vale a pena. O universo é sábio e traz todas as respostas e recompensas.

Ainda assim, há palavras com muito corpo, com uma força tal, que podem deixar uma semente fértil no coração de alguém… “Truz truz, importa-se? “

17 jan, 20

PÉ DE ORELHA OU INTIMIDADE

 

Observo muito, todos os dias. Tenho um impulso muito grande para ajudar, que fui refreando ao longo dos anos. Hoje, limito-me a ficar atenta, de braços abertos, pronta a agir, se alguém estender a mão. É contraproducente anteciparmo-nos às pessoas, a menos que estejam à beira do precipício. Aí, sou veloz como a chita. É muito delicado interferir no processo delas. Cada uma tem o seu ritmo e o seu limiar de perceção. Um toque mal dado pode levar alguém a fechar-se ainda mais. Por isso, espero por sinais claros.

Isto tudo, a propósito do que tenho vindo a observar em algumas relações de amizade e de casamento.

Muitas pessoas não conseguem estar sozinhas porque o vazio faz vir à tona histórias passadas mal resolvidas, carências e memórias difíceis. Observo, frequentemente, que essa busca incessante de companhia é inversamente proporcional à intimidade construída. Pois é. Quem não sabe estar consigo mesmo, não sabe também estar em relação, porque estar em intimidade com alguém é estar em contacto com emoções, necessidades e desejos, nossos e dos outros.

Como é que isto acontece? Eu explico. Para algumas pessoas, a carência é um buraco que precisa, a todo o custo, de ser tapado. Basta-lhes ter companhia, uma troca de presença física e uma orelha para acolher as histórias diárias, desde que os deixem em paz, no seu isolamento emocional. Já bastaram o excesso de controlo da mãe ou do pai, e as primeiras desqualificações e rejeições. É claro que nada disto é consciente. O problema reside no facto de inúmeras pessoas desconhecerem os seus padrões de fuga ao contacto mais profundo. Essas defesas aparecem silenciosamente, fazendo repetir-se a história, conduzindo novamente a desilusões amorosas e solidão. Portanto, a carência retroalimenta-se a si própria: conduz à busca desesperada de companhia, mas, para não sofrer novamente os mesmos dramas, a pessoa resguarda-se emocionalmente da outra, criando isolamento afetivo. Há muita gente a viver assim, em família. Falam de tudo, mas ao lado do que é preciso, só para não serem apanhados olhos nos olhos. Para algumas destas pessoas, é suficiente a presença de uma orelha disponível.

Vou dar o exemplo da Lídia. Alienada dos seus próprios sentimentos de abandono, projeta tudo isso nos outros, buscando resgatá-los, quando é ela que tem fortes dependências afetivas. É uma espécie de boa samaritana, ajudando este e aquele amigo, este e aquele namorado, este e aquele desconhecido. Só não se resgata a si mesma. Dá, dá, dá, e não se põe a jeito para receber, gerando desequilíbrios em todas as relações. O cansaço instala-se, e é de tal ordem, que resolve o assunto fechando o coração dentro de uma armadura. Depois do último divórcio, devotou a sua vida a superproteger as filhas, encurralando-as numa dependência doentia.

Nestes casos, ao fim de muitas desilusões, pode acontecer uma de duas coisas: desenvolver-se comportamentos aditivos, para não sentir a carência (sexo sem compromisso emocional, trabalho em excesso, viver para os outros, drogas, etc.); ou fazer uma introspeção séria (terapia, por exemplo) para ir à raiz do problema, abrir o coração e recuperar o amor próprio. Voltando à Lídia, era preciso que ela fosse ao fundo do seu abandono, ao seu corpo de dor, e resgatar-se. Só assim, aprendendo a olhar para as suas necessidades profundas, poderia libertar-se do papel de salvadora e construir uma relação nutritiva com alguém.

É um desperdício transformar as relações em palcos tão pobres de partilha! Observo, com alguma preocupação, que algumas pessoas controlam os relacionamentos através do dar, garantindo assim a presença do outro. Outras, pela vitimização manipuladora. Outras ainda, pela atitude de agradar, ficando à mercê da vontade de alguém. No entanto, ao jantar, os olhos não se cruzam, os assuntos não são íntimos, e o telemóvel ganha destaque. Não há encontro.

Nem de propósito, dobrava eu a esquina da minha casa, quando uma vizinha, moça com pouco mais de 30 anos, me intercetou, muita aflita:

– Sei que a vizinha é psicóloga…

– Sim… – balbuciei, surpreendida.

– Preciso muito de ajuda… é por causa do meu namorado – e desatou a chorar abraçando-se a mim.

Alguns dias depois da nossa conversa, tive curiosidade em saber como é que ela estava.

– Ele voltou… – disse ela, com um sorriso de orelha a orelha.

– Chegou a telefonar à minha colega? – perguntei.

– Não. Já não é preciso.

– Deixe-me dizer-lhe uma coisa. – tentei eu, mais uma vez. – Se não resolve a sua questão de fundo, ela bater-lhe-á à porta, novamente.

O resto, não é necessário contar. O caso ilustra bem o texto que acabei de escrever.

Tanto é uma escolha livre, fugir de si mesmo, perpetuando a vítima, como o é, arregaçar as mangas e trabalhar corajosamente sobre os calcanhares de Aquiles. Esta última opção pode revolucionar a nossa vida, fazer-nos sair da mera necessidade de companhia e escolher criteriosamente a pessoa que queremos ao nosso lado, entrando no domínio das relações maduras, fontes de amor e crescimento mútuo.

21 dez, 2019

DIREITO POR LINHAS TORTAS

 – “És ímpar, minha filha. – afirmou a mãe, sem esconder algum orgulho.

Matilde deixou-se abraçar demoradamente, como há muito tempo não fazia. A sua vulnerabilidade deu-lhe direito a muitas festas no cabelo e a palavras carinhosas, cheias de pepitas de esperança.

Matilde é uma daquelas pessoas que larga o certo pelo incerto, para tentar salvar a pureza das coisas. Não negoceia o seu valor, mas vacila, como toda a gente, perante o vazio da perda.

– Fica tranquila – assegurou a mãe. – Só vejo bênçãos à tua espera. Nunca lamentes fazer o que está certo.

Matilde fechou os olhos e, exatamente ali, no peito quentinho maternal, adormeceu.” Excerto de um pequeno conto

 

É preciso ter coragem para ir ao fundo das questões. A busca de vivências inteiras é uma espécie de travessia no deserto, onde só a sabedoria permite povoá-la de esperança.

Quando se atinge um certo grau de consciência, a responsabilidade é maior. Já não é possível seguir o caminho mais fácil, ainda que este nos poupasse a muitos medos e incertezas.

Fazer o que está certo corresponde, muitas vezes, a mergulhar na solidão e confiar na mão generosa do universo.

Fazer o que está certo implica, frequentemente, deixar ir o controlo, em prol de um prazer maior, num futuro mais belo e promissor. É ter a coragem de caminhar sozinho, por linhas tortas, sem se perder o fio condutor das profundas convicções. É dar espaço e libertar alguém, por amor.

Fazer o que está certo é a forma mais rápida de se chegar onde se precisa de chegar.

14 dez, 2019

 

 

QUANDO O AMOR NOS BATE À PORTA

“Quando o amor chega inesperadamente e bate à tua janela, apressa-te e deixa-o passar, mas primeiro fecha a porta da razão, uma vez que até a mínima ameaça o pode assustar, tal como o fumo afoga o frescor da brisa da manhã.

À razão, o amor diz que a estrada está fechada: – você não pode passar! – mas, ao amante, oferece centenas de bênçãos. E antes que a mente dê um passo, o amor atinge o sétimo céu.

O amor escalou a montanha sagrada! Eu tenho que parar de falar e deixar que o amor fale do seu ninho de silêncio”. Rumi

 

Quando o amor nos bate à porta, dá sempre sinais, pedindo a nossa extrema atenção.

Quando o amor nos bate à porta, em vez de o tentar prender, é melhor deixá-lo respirar bem, vê-lo passar airosamente por nós, fazer amizade com ele e calar imediatamente a voz do medo. Esta funciona como obstáculo e traz ao de cima todas as sabotagens e resistências, levando os potenciais amantes a refugiar-se na cabeça.

Quando o amor nos bate à porta, é aconselhável olhá-lo nos olhos, a uma distância de segurança, durante o tempo que for necessário, porque é bem possível que, atrás dele, venha o rasto de muitas feridas do passado. É justamente quando o amor aparece, que aquelas (feridas) se atravessam, raivosamente, para defender a sua armadura.

Quando o amor nos bate à porta, e a falta de confiança for maior, apressemo-nos a pedir a ajuda de alguém que mande calar a nossa mente verborreica, e nos abrace durante muito, muito tempo. E, aí, nos permitamos começar o caminho da cura, a partir de um ninho de silêncio.

Quando o amor nos bate à porta, é porque o merecemos! É, porém, preciso usar de sabedoria, saber esperar e, nesse templo interior, ir preparando o festim sagrado da abundância.

Quando o amor nos bate à porta, é fundamental agradecer!

8 dez, 2019

 

 

 

 

 

PAI

Passaram-se quase 16 anos, depois da morte do meu pai. De repente, dei-me conta da falta que ele me faz. Era um homem grande e era o meu pai. Às vezes precisamos de dizer “Olha, aquele é o meu pai”. A mão dele era forte e conseguia, de uma assentada, apanhar-me o cabelo todo. Tenho saudades das viagens longas em África, dos milhares de quilómetros percorridos sem avistar vivalma, dos animais que se cruzavam no nosso caminho, dos rios enormes com jacarés e jangadas. Sempre tive muito medo dos jacarés. Não me esqueço daqueles olhos e bocarras ameaçadores e das histórias que se ouviam. Algumas delas, contou-me ele. Dessas, eu não gostava nem só um bocadinho. Tenho muitas saudades das canções. Ele cantava muito. Eu chorava porque ele imprimia emoção às palavras e gostava de impressionar. Conhecia-me bem. Sei-as todas, de cor e salteado, algumas em Umbundo.

Era um sonhador e um visionário. Desenhava sonhos. Que engraçado! Ele desenhava sonhos e eu danço sonhos.

– Filhos, venham cá!

E lá íamos nós a correr, eu e os manos.

– Estão a ver esta casa? Um dia, vai ser nossa.

E assim aconteceu, muitos anos depois, já nós éramos crescidos, em Portugal.

Este é apenas um exemplo. Há muitos outros, no sótão das minhas recordações.

Aprendi com ele que o sonho comanda a vida e que se morre quando se deixa de acreditar. Foi assim que ele morreu. Foi deixando de acreditar.

Deixou-me, como herança, a ousadia e o pensamento divergente, ainda que, muitas vezes, de forma caótica. É mesmo verdade que é do caos que vem a criatividade.

Era o homem dos sete instrumentos. Pintava, tocava banjo e piano (vim eu a saber há bem pouco tempo), cantava, desenhava, desmontava carros, arranjava-os, montava-os novamente e vendia-os, era empreendedor, homem de negócios, poeta e Dom Quixote. Sim, tinha um quê bem grande de Dom Quixote. Tanta coisa num pai só! Também tinha coisas pouco simpáticas, como muitos pais. Essas já foram todas choradas e mais que choradas.

Hoje, ao olhar para uma fotografia dele, tive saudades do deslumbramento que me causava e saudades de tudo o que não me deu, do que faltou, do que poderia ter sido, que, curiosamente, ele deixou, em esboço, nos seus desenhos. Estão agora entregues a mim, à minha capacidade de lhes dar forma. Fiquei com os seus pincéis e com uma cabeça cheia de histórias para inventar, com alguns enigmas para resolver e com muitos desafios pela frente. Sim, foi um pai que me deixou muitos desafios e é por isso que um dia me disseram que eu ia viver muitos anos. Que por ter muito trabalho pela frente, nasci com um bónus de vitalidade, para poder dar continuidade aos sonhos do meu visionário pai, desmontar muitos deles e transformá-los noutros, bem diferentes, mais acertados.

Hoje olho para trás e vejo-me aos saltos, a rebelar-me contra aquilo que achava injusto, a reclamar liberdade, e ele a disfarçar um sorriso, achando-me graça. O sorriso, esse, só reparei bem mais tarde…

Era assim a vida com o meu pai. Uma torrente de emoções.

Era um alquimista.

Tenho curiosidade em saber o que é que ele me diria quando se apercebesse que me tornei numa Dj, quando seria suposto, pelo status quo, ser uma presidente qualquer de uma qualquer associação. Estou convencida de que não se surpreenderia…pois isso faz parte da herança que ele me deixou. Nunca mais me hei-de esquecer da aparelhagem Pioneer espetacular que ele tinha no carro. As viagens eram feitas em silêncio, a ouvir música da mais refinada qualidade, com som de alta fidelidade. Gravei-lhe muitas cassetes ao longo da vida. Toquei muita guitarra e cantámos juntos. Já para não falar da discoteca do Hotel dele! Grande música, anos 50, 60,70 e 80, em vinil, claro, e muito jazz, como não podia deixar de ser.

Tenho saudades do meu pai. Não foi perfeito, longe disso. Mas foi-se tornando perfeito, dentro de mim, com as pinceladas que lhe fui dando ao longo dos anos. Neste preciso momento, está a suportar-me as costas e a sussurrar-me ao ouvido para nunca, mas nunca deixar de acreditar nos meus sonhos porque os sonhos têm vida própria e nunca morrem.

Tenho saudades do meu pai.

7 de dezembro, 2019

 

 

 

 

 

 

CORAÇÃO DE ASAS COM PERNAS LONGAS

 

CAPÍTULO 1

Esta é a história de uma fada, de cabelo encaracolado e cheiro a floresta, muito diferente das fadas vulgares. Em vez de asas, tinha o dom de imitar a linguagem dos animais e, até hoje, ninguém sabe ao certo se, de facto, seria uma fada, ou simplesmente uma menina dotada de uma enorme capacidade de sonhar. As pessoas precisam muito de dar nome às coisas, para se sentirem seguras, e é por isso que não perderam tempo a classificá-la. Enquanto a sua verdadeira identidade não for compreendida, consideremos que aquele ser, de vestes assimétricas, seria uma fada.

Nascera logo pela manhã, numa terra abundante, no seio de uma família numerosa. Uma família particularmente irrequieta e cheia de sonhos. Não raro, era o fumo colorido que saía pela chaminé da sua casa, por causa das inúmeras fogueiras que faziam diariamente, a propósito de todo o tipo de assuntos. Quando se zangavam, a fogueira servia para assustar e, quando se divertiam, as fogueiras eram uma espécie de raios luminosos que circundavam as suas cabeças, em loops de imaginação. O pai era quem dirigia as maiores ousadias. Já a mãe, tinha o cuidado de segurar os pequenitos para que não tivessem medo. Mesmo assim, tinham muito medo. A miúda mais nova vivia tão assustada, que resolveu aprender a cantar e a dançar no escuro, iluminada pelas estrelas, para afastar os maus pensamentos. O poder das suas danças era enorme! Conseguia, em cada rodopio no espaço, transformar-se em quase todas as espécies de animais que habitavam a floresta circundante. Foi assim que ela aprendeu a comunicar com eles. Estes, de orelhas arregaladas, seduzidos pelo som cantante da fada, deslizavam, sem demora, pela folhagem densa, aparecendo, de sopetão, gulosos de curiosidade.

– Não pares! – gritava o pavão, sempre que a moça se calava só para descansar um bocadinho.

Ao mesmo tempo, os patos bravos agitavam-se no lago, os lobos uivavam e os coelhos, esses, aproximavam-se de mansinho, em jeito de súplica:

– Continua, por favor!

E assim se passavam horas.

Dentro de si, a fada sabia que, para além daquele lugar conhecido, havia mais mundo e seres maravilhosos capazes de lhe mostrar outras realidades. Se o seu canto conseguia inebriar os seus amigos animais, as suas danças tinham o poder mágico de a fazer desaparecer…

– Que fantástico! – dizia para si mesma, maravilhada com o que acabara de descobrir. Esfumando-se no espaço, conseguia reunir toda aquela energia e plasmar qualquer animal à sua escolha, assumindo as suas habilidades e instintos de sobrevivência. Os seus amigos animais não dariam conta e, misturada no meio deles, seria conduzida pela imensidão das paisagens, até encontrar o que a sua sabedoria profunda lhe segredava. Algures, longe dali, estaria algo de muito especial à sua espera. A fada era dotada de uma enorme fé. Ninguém lhe tirava da cabeça que a vida podia ser extraordinária!

Muitos dos seus dias eram passados assim, dançando e cantando para os animais da floresta, e usando poderes mágicos para expandir o seu horizonte. De curiosidade em curiosidade, de ritmo em ritmo, foi fazendo da sua vida uma busca incessante daquele lugar, onde só houvesse fogueiras criativas que não causassem medo nem instabilidade.

Cabisbaixos, pela falta do canto e das danças da sua amiga, os animais acabariam certamente por retornar ao interior da floresta, e ela segui-los-ia sem que eles dessem por isso.

CAPÍTULO 2

Os roedores eram seres adoráveis e muito vivos. Eram hábeis na arte de ziguezaguear pelo espaço, arrastando consigo olhares curiosos que desejavam penetrar na floresta labiríntica.

Numa certa tarde de verão, surgiu um coelho, de cor invulgar, no meio da bicharada que se juntava à volta de um riacho muito fresco. O novo visitante fazia ziguezagues estranhos, lembrando danças. Os outros coelhos, pavões e companhia pressentiam algo familiar, mas longe de imaginarem quem seria afinal aquele coelho com semi-tons difíceis de definir. O mais estranho de tudo era, porém, a grande assimetria que exibia na pequena cauda.

– Quem és tu?

– Ora, que disparate, quem sou eu! Sou um coelho como tu.

– Nunca te vi aqui…és um pouco diferente. – insistiu o coelho cinzento, intrigado.

– Sabes bem que nos reproduzimos à velocidade do vento … é mais do que natural não darmos conta uns dos outros…

– Não, não. És mesmo muito diferente!

– E qual é o problema de ser diferente? É proibido, por acaso? Vá! Chega de conversa e vamos passear. Apetece-me imenso atravessar a floresta, antes que anoiteça. Vamos?

– Uhm! Vou chamar os outros. É melhor irmos todos. Há sempre perigos pelo caminho. Quantos mais olhos, melhor. Nunca se sabe quando há um predador à espreita.

– Como assim, um predador?

– Vê-se mesmo que és novato aqui. Então não sabes que o mundo lá fora não é um mar de rosas? Encontra-se de tudo. Animais e pessoas generosos, e outros, diabólicos. Os piores de todos são os que vêm disfarçados com pele de cordeiro. É preciso ter radar, faro e velocidade.

A fada ficou um pouco dececionada com a perspetiva de vir a encontrar obstáculos e perigos. Estava cansada daquele lugar desassossegado em que vivia que, ora tão depressa a fazia exultar de alegria como, de repente, a consumia de instabilidade. Viver na corda bamba, onde os humores familiares se assemelhavam a labaredas de um fogo incontrolável, era muito cansativo. No seu coração, residia o sonho de encontros felizes e lugares seguros, onde se pudesse ser livre e, ao mesmo tempo, estar acompanhada por presenças doces e familiares.

Mas os seus amiguinhos desconheciam os seus poderes! Ela saberia escutar as intenções mais profundas de qualquer ser, falar a sua linguagem e conquistar os seus corações. Se aparecesse um lobo, um rodopio no ar seria suficiente para se transformar num lobo também, com olhos penetrantes e aquela capacidade de arremessar as patas contra o chão, de forma segura, para se lançar num voo. Em vez de adversários, encontraria aliados. Disso, a fada estava quase completamente certa.

Quase, pensava bem. Lá no fundo, havia sempre a ameaça de um perigo.

Sem demora, os coelhos avançaram floresta adentro, colhendo experiências pelo caminho e alimentos da mais variada espécie. Ao longe, escutavam-se vozes e música. Música era a paixão de todos eles, coelhos, pavões, lobos e fadas. Mais se agitaram, acelerando os passos, entrecruzando-se caoticamente para ver quem chegava primeiro. O coelho de cor indefinida era quem chegava mais depressa aos sítios porque o seu coração tinha asas com pernas longas.

Junto à encosta de uma montanha fabulosa, erguia-se um homem de chapéu, exibindo vestes brancas, esvoaçantes. A imagem era majestosa e deslumbrante. Ao seu lado, havia músicos. Mais de 20. Mulheres e homens dançavam freneticamente, soltando gritos como o guinchar das águias. Havia abundância, risos, comida e vinho. O homem emanava um magnetismo capaz de hipnotizar. Dos seus gestos, brotavam promessas de magia e amor profundo. Tudo à sua volta parecia ganhar tamanho e luz. Só aqueles gritos, como o guinchar das águias, destoava. Ainda assim, a fada, disfarçada de coelho, não resistiu a ver apenas o que lhe interessava. Deixou-se encandear pela luz, rodopiando magicamente no espaço. Num ápice, voltou ao seu corpo de mulher já feita, deixando para trás a pele de coelho e todos os animais. Estes estavam tão ofuscados pela música e pela mesa farta, que nem deram pela falta do coelho peculiar. O cavalheiro deslumbrante, hábil em manobras de charme, nunca mais tirou os olhos da jovem mulher.

Aqui começou uma história que viria a repetir fogueiras perigosas, fascinantes e instáveis que, em vez de expandir, aprisionaram a fada peculiar numa loucura de pele sedosa, enganadora de tão escorregadia. A cegueira pela luz é pior do que viver na sombra, e a fada quase perdera os seus poderes.

Quase. A fé inabalável com que nascera rasgou a mesma pele, fazendo sangrar o orgulho de uma leoa. Nesse dia, a dança foi tão intensa, que a mulher dera corpo ao felino majestoso de garras e dentes afiados, esfomeado de liberdade.

E, assim, partiu ela, dentro de uma corrida veloz e sensual.

CAPÍTULO 3

A paisagem era agora mais árida, com uma árvore aqui e ali. Os animais eram de grande porte e os gatos grandes, onde ela se incluía, rugiam para abrir passagem. A leoa exibia uma cauda fabulosamente assimétrica, de duas cores, ganhando ainda mais o respeito dos animais daquele lugar.

– Quem és tu?

– Ora, quem sou eu!! Sou uma leoa, não vês?

– Pareces, mas…nunca vimos nada assim. Como gatos que somos, somos vigilantes e nada nos escapa. Onde arranjaste tu essa cauda?

– Incomoda-vos, a minha cauda?

– Não é que nos incomode, mas somos os reis deste lugar e exigimos saber quem tu és.

– Sou uma leoa peculiar. Já ouviram falar de animais peculiares? Há sempre um em cada família. Normalmente, tendem a ficar mais solitários, entregues à sua diferença. – explicou a fada leoa.

– É a primeira vez que conhecemos uma leoa peculiar, mas faz sentido o que tu dizes. Há sempre alguém que não se encaixa e que percorre mundo à procura do seu verdadeiro lugar. – aquiesceu o leão mais velho da alcateia.

– Importam-se que fique convosco? Gostava que me levassem a conhecer as lonjuras deste lugar. Que tal irmos até ao limite, onde a terra se encontra com o rio? – sugeriu a leoa, mudando rapidamente para o assunto que lhe interessava.

Está bem! – concordou o leão. – Vamos levar-te às margens de um rio esplendoroso. É impossível ficar indiferente à sua grandiosidade!

Nessa noite, dormiram empoleirados nos galhos de uma grande árvore, iluminada pelo luar ponteado de estrelas. Uma suave brisa rufava nas folhas, enquanto, ao longe, se ouvia o crocitar persistente dos mochos.

A alvorada chegou com a debandada dos felinos. Linda imagem, aquela! O tom trigueiro das leoas contra o azul índigo do céu, raiado a vermelho, ficou eternamente gravado na memória da fada peculiar, como o selo do esplendor máximo da Natureza. Velozes, rasgaram o horizonte, desenhando ondas sinuosas e insinuantes de beleza suprema.

Os ziguezagues alegres e dóceis dos coelhos deram lugar a linhas sensuais, sem princípio nem fim, curvas magnéticas de poder certeiro. Ninguém ficava indiferente àquele cenário espetacular de grandiosidade e força. Os mais incautos, de passo lento e distraído, viam-se em apuros quando aqueles seres majestosos avançavam exuberantemente, sem se desviar do seu caminho. Esta leoa era a voz assertiva da fada, que começava agora a alojar-se nos seus ossos.

Percorreram paisagens infinitas, dias e noites a fio, até chegarem às margens de um enorme rio, bordado a capim dourado. O exotismo do lugar era de cortar a respiração, mas o que mais chamara a atenção da leoa peculiar fora o jovem esguio e ágil que manejava, com destreza, uma jangada enorme e pesada. Havia ali muita vitalidade e um quê de espírito selvagem fascinante, envolvendo a fada em sonhos de aventura e liberdade.

Num contorcionismo felino, a leoa projetou um corpo de mulher, caindo graciosamente junto aos pés do jovem que parecia admirar a sua aparição magistral, refletida na água do rio. Começara aqui uma amizade cúmplice. A fada pensou ter encontrado o seu lugar e a sua tribo, comandada por um jovem aventureiro, livre e conhecedor do mundo.

A desilusão não tardara a aparecer. Sempre que era suposto saírem para uma aventura, o jovem descartava a sua amiga, levando consigo fieis admiradores dos seus talentos. A fada ficava desconcertada, apercebendo-se rapidamente do logro daquele encontro. Em vez de partilha de aventuras, cada um ia para seu lado, cavando-se um enorme fosso no pilar da confiança.

Antes da partida do seu amigo para uma grande viagem à volta do mundo, a fada surpreendeu-o a falar com a sua própria imagem, espelhada no rio. O jovem fazia as perguntas e dava as respostas, decididamente enamorado pelo seu encanto.

Estava compreendido o enigma e confirmada, mais uma vez, a precipitação da fada leoa, com coração de coelho, sonhador e ingénuo. No dia da sua chegada às margens do rio, o jovem ágil não a contemplava a ela, mas sim a ele próprio, na transparência das águas.

Sem mais delongas, uniu a sua voz ao piar dos mochos que se preparavam para iniciar uma longa viagem pela noite dentro. Iniciou a dança de braços mais poderosa que alguma vez fizera, levantando voo contra o cinzento do céu.

CAPÍTULO 4

Os mochos são dotados de excelente visão, audição apurada e voo silencioso, fazendo deles especialistas em manobras surpresa. São os companheiros mais seguros e calmos que há, para atravessar longas extensões. Algumas espécies conseguem aumentar e diminuir de tamanho, para se defenderem de outros animais, ou para se camuflarem como um galho, dependendo da situação. A fada não hesitou em entregar-se ao silêncio desta viagem acompanhada, plena de sofisticação. Finalmente, encontrara companheiros capazes, como ela, de fluir no espaço e de se transformar a cada instante.

Estes seres são conhecidos pela sua sabedoria e, como tal, abordaram a fada, diretamente, sem hesitações.

– Bem-vinda ao bando. Nós sabemos quem tu és.

– Claro que sabem…. sou uma de vocês, então…

– Podemos admitir que és uma de nós, sim, apenas na medida em que consegues ser uma de nós.

– Que querem dizer com isso? – titubeou a fada, agora com uma assimetria flagrante nos olhos.

– A tua cauda assimétrica de leoa e a aterragem espetacular que fizeste junto aos pés do jovem, à beira do grande rio, chamou a nossa atenção. Apreciamos essa tua qualidade e, se bem te lembras, quando dormias nos galhos da árvore, ouvia-se ao longe o nosso crocitar.

– Sim, agora que o dizem, lembro-me bem…

– Esperamos, sinceramente, que esta seja a tua última viagem, na pele de um animal. Em algum momento da tua jornada haverias de seguir a nossa voz.

A fada mocho perdera os argumentos e as perguntas. Estava perante animais soberbos, seguros da sua sageza.

– Apressemo-nos! Temos uma viagem longa pela frente. Vamos levar-te a um sítio muito fresco, diferente de todos aqueles por que passaste. Um lugar, cuja aparência desafiará tudo aquilo que conheces e aquele que sempre foi o cenário dos teus sonhos.

Ouvido o decreto do Mocho-Real, a fada peculiar desenhou dois loops no ar, em consentimento do que fora dito, levando, nos seus olhos enormes, uma fé inabalável.

Fora a viagem mais longa que fizera até então!

A travessia das montanhas era muito dura. O ar denso e o gelo nos cumes fazia doer a pele e os ossos. Seria necessária uma grande dose de persistência e uma forte capacidade de abdicar do conforto da terra quente. Nos percursos mais difíceis, a fada quase desistira da grande viagem. Tinha saudades do rugido da leoa, da sua força exuberante, e da distância de segurança que soubera conquistar. Saudades também do azul índigo, raiado a vermelho. A magnificência do universo era a maior compensação para a solidão. Uma espécie de espírito imbuído na existência humana, uma companhia silenciosa e reconfortante.

Mas havia agora a voz do mocho, piar sábio e seguro.

– Não se pode desistir quando se chega a este ponto!

Visitaram muitos lugares. Em alguns deles, a fada demorou o seu olhar e fez de conta que já tinha chegado ao seu destino. Apetecera-lhe acreditar que aqueles sítios e aquelas pessoas poderiam ser o seu país. Em todos esses lugares, voltava ao seu corpo de mulher e a todas as vulnerabilidades.

Era cansativo mudar de pele. Porém, percebia que as transformações iam sendo cada vez menos dolorosas e que, dentro de si, começava a reinar toda a sabedoria do reino animal, incluindo o humano. Bastava, simplesmente, manter-se no ritmo e no centro do corpo, ainda que cada despedida fosse sempre um pouco triste.

Numa dessas despedidas, a fada mocho partira bem cedo, na companhia incondicional dos seus amigos. Ao primeiro sol da manhã, juntara-se o grasnar dos corvos, anunciando o avançar do dia que se enfeitava, então, de uma luz muito especial. A visão dos campos, a partir do céu, era lindíssima. O matizado das cores espalhava-se a uma velocidade surpreendente, em todas as direções, impregnando o ar de um perfume doce a primavera.

Passaram-se dias. Percorreram milhares de quilómetros, sem avistar vivalma. Um verdadeiro mergulho no coração da natureza!

Nisto, a fada avistou, ao longe, uma aldeia, erigida sobre uma serra voltada para o mar. Era o sítio ideal para uma paragem. O céu estava um pouco frio e apetecia-lhe descansar em terra firme. Desceram suavemente e poisaram num muro branco, debruçado sobre um vale cheio de ervas rasteiras e flores silvestres. Ao longe, ouvia-se o barulho do mar e, um pouco mais perto, o eco de chocalhos. Que seria aquilo?

Movida pela curiosidade, planou encosta abaixo, sendo surpreendida por um rebanho de ovelhas a pastar. Mais atrás, sentado num muro de pedra, estava um pastor sossegado a contemplar o seu rebanho. Discretamente, a fada mocho, de olhos assimétricos, fez uma espiral graciosa, rebolando pelo pasto abaixo, com vestes leves e cabelo despenteado. Não tardou a ouvir-se o balir das ovelhas agitadas e os seus chocalhos a soar desordenadamente. O pastor logo se aproximou para ver o que se passava.

– Bom dia! Não se assuste que elas não fazem mal. São os seres mais dóceis que existem e nunca estão quietas. Basta ouvirem alguém a bulir, ou uma abelha a esvoaçar, que começam logo aos saltos. A menina é daqui?

– Não, não. Acabei de chegar de uma longa viagem. Ouvi uns chocalhos, vi flores silvestres e não resisti a vir espreitar.

– Olhe que isto aqui é uma agitação. Aparentemente é tudo muito calmo, mas o dia é muito preenchido. Só o tempo que demora a dar banho às ovelhas, fazer-lhes as camas, ordenhá-las…Pfff! Não imagina! Depois é preciso estar sempre a orientá-las, levá-las de um lado para o outro, ir buscar uma que resolve ir brincar para o meio da rua… ah pois, é que elas brincam! Há umas que parecem cães e fartam-se de saltar. O momento mais pacato do dia é este, o da pastagem. Estava mesmo agora a descansar um bocadinho, quando ouvi as minhas ovelhas a balir desalmadamente…

– Desculpe tê-lo tirado do seu descanso…vou já embora. Não quero incomodar.

– Essa agora! Não peça desculpa! Dar dois dedos de conversa é sempre bom.

– Pois imagino. Deve ser uma vida muito solitária, a de um pastor…

– Solitária?

– Não é? – questionou a moça, meio surpreendida.

Nem pensar nisso. – retorquiu o pastor, deixando sair uma gargalhada. – As pessoas que vêm da cidade têm sempre essa opinião, e poucas acreditam no que eu lhes digo, que aqui acontecem coisas sublimes, todos os dias. Dizem que sim com a cabeça, mas logo dão meia volta e regressam às suas vidas citadinas. Também está bem assim. Cada um deve viver como gosta. Também eu gosto da cidade, às vezes.

A fada peculiar estava a gostar tanto desta conversa, que se esqueceu dos seus amigos. Onde andariam eles? Ela aprendera a confiar na sabedoria destes animais, observadores e discretos. Se necessitasse, viriam buscá-la, sem hesitações.

– Gosto muito de estar aqui, mas acredito que, ao fim de algum tempo, sentiria saudades de ouvir música e do calor tórrido. – arriscou a fada.

– Música é o que não falta aqui e, quanto ao calor, espere pelo verão e vai ver!

– Música? Vocês aqui também tocam, cantam e dançam?

– Como é que se chama? – perguntou o pastor.

– Maria.

– Venha cá, Maria. Sente-se aqui e escute.

Fizeram silêncio absoluto durante mais de uma hora. A fada não queria acreditar na miríade de sons diferentes que aquele campo oferecia. Como é que ela não tinha dado por isso ao longo de tantas viagens pelo mundo? Que os sons da natureza eram música, ritmo e obedeciam a uma lei universal rigorosa? O barulho do mar, lá ao fundo, enchia o espaço que dava a pauta onde se inscreviam todos os outros sons: a percussão dos chocalhos, o balir das ovelhas, o sibilar de gatos em luta pelo seu espaço, o rufar das folhas ao vento, as vozes das pessoas ao longe, o chilrear desenfreado dos pássaros…

O pastor reuniu as suas ovelhas e foi mostrar as redondezas à moça que começara, agora, a reproduzir alguns sons, em contratempo. Desceram por um atalho ladeado de árvores frondosas, repletas de frutos, que ia dar a um anfiteatro de cascatas. O exuberante som das quedas de água fazia eco, juntamente com o grasnar dos corvos e as vozes de visitantes que se refrescavam nas lagoas.

Pararam, momentaneamente, numa ponte que fazia a travessia para um lugar mais despido, cheio de pedras. Pedras antigas, enormes, que davam perfeitamente para uma pessoa se estender a apanhar sol ou desfrutar da brisa fresca. Despediram-se das fragas e avançaram para uma dessas pedras, onde ficaram a contemplar as ovelhas irrequietas, e a partilhar histórias.

Havia muito tempo que não sentia tanta paz!

A fada tinha escalado montanhas, atravessado desertos, florestas e rios. Não era fada. Era, simplesmente, uma mulher de fé inabalável, assumida nas suas assimetrias, confiante na força e na imprevisibilidade do destino. Deslumbrara-se mil e uma vezes por pessoas e lugares. Dançara muito para sincronizar com o ritmo de tudo e de todos, acabando sempre insatisfeita. Faltava-lhe algo mais simples e mais profundo. Uma verdade nascida do silêncio e da observação atenta.

Atrás da sua aparência simples, o pastor guardava uma vida repleta de experiências únicas, muitos sucessos e perdas dolorosas. Era um homem de olhar profundo e discreto. Guardava tesouros e palavras, apenas para quem soubesse adivinhá-los. Tinha um grande sonho e não desistia dele. A música fazia parte desse sonho. Fazer pessoas felizes, também. O campo e as ovelhas eram o seu refúgio de paz e tranquilidade. Talvez, um lugar de onde pudesse escutar mais profundamente o seu coração.

Fez-se silêncio quase absoluto.

Tudo parecia entrar em harmonia, respeitando algo muito importante que pudesse acontecer. Talvez fosse a energia daquele sítio, afastado do farfalhar das árvores e do marulhar das ondas, que incitasse ao serenar de todos os ruídos. Só aqui e além, um leve toque de um chocalho preguiçoso, ou o respirar mais fundo de um dos dois.

Não eram necessárias palavras. Somente infinito, onde os sons se entrelaçavam com sentido, compondo sinfonias. Um encontro simples, uma afinidade intrínseca, um cruzamento, no espaço, de dois olhares aguçados, na mesma direção.

Muitas horas se passaram, entretanto.

Sob o pôr-do-sol, brilhavam os dois rostos, agora repousados um no outro. Fazia frio e as suas mãos buscaram unir-se, num calor tão grande, como o sol nascido na pele de amantes felizes.

No regresso a casa, avistaram um bando de mochos poisados no cimo da ermida, resplandecendo contra o azul índigo do céu. Nisto, abriram as asas e levantaram voo, silenciosamente.

A fada, que não era fada, sorriu, agradecendo todo aquele amor nascido da experiência e da sabedoria.

FIM

2 dez, 2019

 

 

 

 

 

 

CAIXA VAZIA

 

África, 1 de Maio de 2019

Querido Pássaro,

Atravessamos uma época de profunda seca. A terra rachou sob os nossos pés e o horizonte esconde-se atrás de uma estranha nuvem de proporções incalculáveis.

Era costume haver sol, chuva e muitas nuances de cor, sem que nada nos impedisse de ver o caminho. As meias-noites eram sempre estreladas, como não havia iguais! Os rituais da passarada davam-se em generosa profusão e tu ocupavas o maior pedaço do meu céu. Outros tempos… Tempos de inocência e pura alegria. Chegavam cartas bem nutridas e as manhãs acordavam bem-dispostas.

Não me conformo com o cataclismo que abalou este continente!

Para além da falta de água e da escuridão repentina que nos devastou a todos, as casas foram arrombadas, e as caixas de correio ficaram vazias.

O que fazer com uma caixa vazia? Diz-me tu em que podemos nós acreditar e o que podemos nós imaginar quando nos deparamos com ela?

Estará ela cheia de saudade? De sonhos virgens? De pedidos de socorro? De terríveis segredos? De impotência? De amor proibido? De medo? De nada que é tudo? De quê?

Só não quero ganhar o hábito de me debruçar sobre o vazio como se fosse um vício. Quero enchê-lo de dança. É isso. De dança e de deliciosos cansaços, até que o meu corpo relaxe e me possa parecer que terei ouvido o teu esvoaçar.

Acabei de decidir que uma caixa vazia pode ser um esconderijo para os meus pássaros e o espaço amplo onde cabem todos os sonhos do mundo.

DREAM BABY DREAM

 

A maior liberdade de um homem manifesta-se na capacidade de escolher o seu próprio Destino.

Os seus contornos deviam ser sempre os do amor e da utopia, porque o movimento nascido de ambos é uma força motriz que vem do centro do corpo e da alma do mundo, gerando vidas extraordinárias.

Admito porém a complexidade da existência, propositadamente plasmada por vórtices de sonho e camadas de medo, com tempos diferentes de partida e de chegada.

Ai da humanidade, se não fosse a música!

Ela é uma chamada de atenção para o Amor, um sopro que mantém aceso o mais sublime dos sonhos, o hino de todas as utopias, um ato de fé.

Não por acaso, é já um hábito em mim, uma espécie de voo com asas em verso. Com todo o cuidado, componho canções nos seus contratempos, para não romper a linha mágica que une as harmonias e desarmonias do curso da história.

É quase sempre a música a mensageira dos Deuses, reservatório dos desígnios formidáveis da vida.

Sobre ela me inclino na vertigem dos acontecimentos e nela me inspiro, na salvação dos dias.

 

 

ENCRUZILHADA

“Encantadores voos de imaginação acariciam-me o cérebro; mas deixo-os ali a dormitar até morrerem, pois não tenho poder para lhes dar corpo, para os transformar em coisas do mundo exterior”.

Fernando Pessoa, Escritos autobiográficos, automáticos e de reflexão pessoal

 

Dedico o poema que se segue a todas as pessoas que vivem ou já viveram duras encruzilhadas, confrontando-se com verdades profundas que, ao fim de anos, retornam à superfície para uma nova oportunidade de reflexão e de escolha.

 

ENCRUZILHADA

Vejo-me ali, dobrado em dois, na encruzilhada da estrada!

De um lado, a casa na rocha

Do outro, a promessa de um voo.

Direita, esquerda, o olhar vacila

Ansiedade no peito, grito de amor

Uma brasa nas mãos, morte contida.

O passado persegue-me como um menino assustado

Agitando como estandarte

O prazo de validade para a vertigem de um sonho!

Mas ai de mim, que o tempo não espera!

O arrepio na espinha, o susto de um choque

De frações de segundos que decidem a história.

Vivi anos em loops de imaginação!

De sonho em sonho

Bebi água no deserto

Tendo o destino previsível como certo.

Com a fantasia

Ludibriei a realidade

Que não perde nunca a oportunidade

De ser cruel em demasia

Sábia de condição!

É escandoloso ser apanhado agora, na curva do desconhecido!

O que fazer com todos estes sonhos

Caídos em catadupa no colo, feitos de corpo e pele

Hálito fresco e promessas cumpridas?

Vejo-me ali, dobrado em dois,

Engolido pelos próprios sonhos

Com a vida à espera

– Impaciente –

Louca de pressa

Para acontecer de verdade.

BANG BANG

Há quem me chame de “terapeuta do amor”. Não tomo isso como um elogio, apenas um facto, porque tudo se trata de amor e da falta dele. A terapia é uma oportunidade para tecer de novo velhos laços e, de certa forma, aprender a amar melhor. Os meus textos são apenas pedaços de histórias, refletindo o variado espectro emocional de que são feitas. Bang Bang é um denominador comum a muitas vidas.

 

BANG BANG

Tu e eu sonhámos tudo ao pormenor. Amámos como num sonho, como só uma criança sabe amar. O fim, quando ou se viesse, viria certamente debruado a versos, no puro desalinho da paixão.

Uma distração imperdoável no percurso, um estrondo no chão, um rasgão no peito, Bang Bang, you shot me down.

Não podia ser verdade. Nos meus olhos apenas névoas, no horizonte o esfumar repentino de cada manhã, relâmpago num inocente fim de tarde, Bang Bang, arranque a sangue frio das últimas páginas da história, you shot me down.

Pele suave, seiva doce de sobreiro forte, fino, vulnerável, descascado até à morte. Corpo inerte ainda quente, mel e sangue na minha boca, e um ponto de luz fosca na imensidão do céu.

Como é grande a pequenez da minha impotência! Um olhar cego e estático no meio do infinito, à espera do tempo que tudo esclarece.

Bang Bang, you shot me down.