BLOGUE

MANHÃS

Preparar-te-ia

Se pudesse

Pequenos almoços deliciosos

No primeiro sol da manhã

Enquanto tu

Absorto e livre

Escrevesses livros.

Depois

Comeríamos juntos.

Tu contar-me-ias por onde viajavas

Dentro da tua prodigiosa imaginação.

E eu falar-te-ia sobre ingredientes de amor:

Rosmaninho, sal e mel.

 

A PRIMEIRA CARTA

África. 7 de Dezembro de 2018.

“Querido Pássaro,

Os teus dias são o poema mais lindo deste mundo.

Depois daquele dia em Dezembro, os nossos sonhos ficaram de mãos dadas no céu. Sabias?

És tu o meu Dezembro, o meu Fevereiro também, mágico Valentim. És agora os meus dias passados a desfiar pássaros no cabelo, ao mínimo esvoaçar do pensamento. Não só pensamento. Agora já tenho o arrepio dos teus voos na pele, que se fartam de me acordar a toda a hora.

Fazes-me feliz só de te pensar. Já para não falar dessa paixão que vem de ti e se mistura com a minha e que dá a história mais bonita que existe no Reino das princesas africanas há muito desenraizadas.

Quero-te assim, de cabelos revoltos, misturados com os meus dedos, nuca disponível para o meu desejo, e muita pele generosa, qual terra firme e acolhedora dos meus sonhos e segredos. E quero ser eu a limpar-te as lágrimas.

Tens o condão de me tornar generosa. Apetece-me dar-te-me, dar-te-me, dar-te-me.

Quero passear contigo numa destas manhãs, antes de nos perdermos um do outro por entre festejos, afazeres e afins. Se não for possível, quero amanhã olhar para ti para que vejas como te trago nos olhos. Mar de violetas e um pestanejar que soará sempre como o bater de asas de pássaros em dias felizes.

Espero por ti”.

O PRAZER DE VIVER

O tema do prazer remete-me imediatamente para o deleite dos sentidos e para o desejo de viver. Estar vivo significa sentir o corpo aqui e agora, estar consciente da nossa natureza animal.

Segundo a Análise Bioenergética, o ego, com todo o seu conhecimento racional, é trémulo e inseguro se não estiver firmemente apoiado na realidade do corpo e dos seus sentimentos. Quando o ego tem as suas raízes no corpo, o indivíduo ganha perceção de si próprio. Se, pelo contrário, as suas raízes forem arrancadas do solo, o indivíduo sentir-se-á envergonhado do seu corpo e culpado em relação aos seus sentimentos, perdendo o sentido da identidade.

Arrisco afirmar que viver o prazer implica aproximarmo-nos da nossa natureza instintiva. Isso não significa desestruturação. Não significa perder as socializações básicas ou tornarmo-nos menos humanos. Significa exatamente o oposto: estar no encalço da nossa profunda integridade.

Aproximarmo-nos da nossa natureza instintiva implica delimitar territórios, encontrar o nosso grupo de pertença, ocupar o nosso corpo com segurança e orgulho, independentemente dos dons e das limitações desse corpo, falar e agir em defesa própria, seguir o rasto da verdade, estar consciente, alerta, recorrer aos poderes da intuição, descobrir o lugar a que pertencemos. É ter direito ao fruto completo, é o fogo criador, é a sexualidade integrada com a ternura, é seguir o instinto e a intuição.

O indivíduo, no pleno gozo do seu prazer de viver, é devoto, trabalha arduamente na direção certa e repousa sempre que o corpo dá sinais. Tem um enorme respeito pela realidade cíclica do corpo e da vida.

Segundo a psicologia Jungiana, a vida instintiva está diretamente ligada à lembrança de um parentesco absoluto com o lado selvagem, mais antigo que nós próprios, que a nossa família de origem. O lado selvagem não é descontrolado. Significa, sim, viver uma vida natural na qual estão presentes uma integridade inata e limites saudáveis.

Quando são cortados os vínculos de um indivíduo com a sua fonte de origem, ele fica esterilizado, os seus instintos e ciclos naturais são perdidos em virtude de uma subordinação à cultura, ao intelecto, ao ego desenraizado.

Quando os nossos ciclos de sexualidade, criatividade, trabalho e diversão são restabelecidos, deixamos de ser alvo para as actividades predatórias dos outros.

Esta natureza instintiva é a terra profunda que habita o nosso corpo e a nossa alma. Por isso, precisa de ser despertada, lavrada, regada, adubada, remexida para que as sementes arquetípicas do prazer possam germinar e encher a nossa vida de verdadeiras tristezas e alegrias e, assim, nos indicarem o caminho. A nossa natureza instintiva é aquela que nos diz “Vai por aqui”.

Viver o prazer é viver integrado com a vasta gama de emoções, com o instinto e com o respeito pelos limites, com os sons da natureza, com as cores, com os sabores e odores inexplicáveis do fruto da terra, com os arrepios na pele – de frio, de calor, de suavidade, da brisa fresca, de dor, de amor. É viver em conformidade com a natureza extática da vida, é comovermo-nos com o belo, com o tremendamente simples, com aquilo que está alinhado, e solidarizarmo-nos com a ovelha tresmalhada do rebanho. Ter prazer é estar inteiro e ser profundamente verdadeiro nas próprias escolhas.

O trabalho terapêutico sobre o Prazer é um trabalho sobre o despertar dos sentidos e da intuição; é cantar sobre a ferida até sarar; é “massajar” muito os pés e reaprender a andar, para sentir a marca do chão no pé inteiro; é um trabalho sobre o deixar ir o controlo obsessivo e conhecer a força da energia que vibra cá dentro. É um trabalho sobre a vivência da sensualidade, movimento que vem das profundezas, seguro e saudável, e que acorre à pele, aos olhos, aos gestos, à voz, ao outro. É também um trabalho sobre o sonho. É andar desvairado à procura da nota vibrante da existência e, quando se  encontra, correr muito depressa com Ela nos braços e com milhares de estrelas nos olhos. Por vezes, é estar num estado febril de inspiração e é começar de novo, apesar das memórias de dor. É dar espaço ao imprevisível e dar voz a talentos escondidos à espera de uma oportunidade.

O Prazer de viver é uma expressão do Amor. No seu significado mais profundo, é uma canção inesquecível que reverbera nas nossas fibras musculares e nos caminhos que nos intersetam com os outros. É a nota contagiante que pode curar doenças, salvar as nossas relações e o sonho da humanidade.

 

 

PÉ DE FLOR

Ao pé de ti

pé de flor

trago de novo a primavera.

Vês?

 

Teimosa

dançou sempre em mim nas

noites frias da saudade e

sonhou todos os meus dias!

 

Sempre soube que virias e

que bastaria eu ver-te!

 

Bastaria eu ver-te e

tudo cá dentro brotaria em flor

dissipando-se a nuvem das noites frias e

o som triste das brincadeiras contidas.

 

Ao pé de ti

outra vez

pé de flor.

Sorrio e agradeço

muito

tanto

o teu persistente Amor!

HOMENAGEM

Quem seria eu sem a minha sombra?

Uma simples forma linear, de luz incandescente, no fim da história.

Quem seria eu sem a fonte de lágrimas que me habita?

Uma melodia que ressoaria estridente na paisagem dolorosamente seca.

Quem seria eu sem o dom da indignação?

Uma viagem em linha reta, sem redefinição da trajetória.

Quem seria eu sem a minha luz?

Uma corrida incessante atrás de alguém.

Um tropeção sem queda,

Uma ferida sem dor,

Um grito sem som, uma perseguição.

E quem seria eu sem te ter tido ao meu lado?

Seguramente seria outra pessoa que não eu,

Esta tonalidade irrepetível que, num momento de êxtase, conheceu o Amor.

HÁ NOS OLHOS TEUS

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Há nos olhos teus ardor e luz, aquele desejo furacão, fogo anunciador de um enorme ímpeto vital…

Notas dissonantes me chegam do teu corpo maltratado, um tanto estagnado, profundamente triste, longe desse olhar que te denuncia.

Que poderei fazer para te ajudar? Eu, que tenho esperado tantos anos pela chispa de um olhar… Eu, que acordei tudo em mim desde que me miraste daquela maneira, naquele dia …

Apaixonei-me pelos teus olhos e quero mimar o teu corpo, até que ele recupere o campo lavrado que é dele por direito…

Quero domesticar a tua domesticação e mandá-la respirar para longe, de onde ela mesma possa ver o teu porte majestoso, imperador, vital … e render-se à tua beleza.

Quero cantar meticulosamente sobre cada célula estagnada do teu corpo, sobre a juventude que te ficou interrompida e vê-la desabrochar novamente como todas as primaveras.

Quero ver-te caminhar no teu eixo perfeito, em múltiplas direções, em diferentes ritmos, em linhas retas, em curvas, em giros, em flechas assertivas, em passos amorosos, lentos, demorados. Tudo. Tudo a que tem direito esse teu corpo à espera de ser direcionado pelos olhos mais lindos que alguma vez vi. Os teus. Cheios de poemas e prosas. Cheios de vida.

 

HOJE QUERO APENAS!

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Fotografia de: Maria Inês de Brito

 

O que me moveu a ser psicoterapeuta, sacrificando uma carreira na dança, foi o sonho de ajudar as pessoas a serem mais felizes. Precisei de atravessar o universo da minha própria fragilidade e aprender a aceitar o sofrimento nos olhos das pessoas e nos meus próprios olhos. É preciso que se diga que o caminho de um psicoterapeuta por devoção é solitário e exigente. Obriga-nos a ser justos. A ser compreensivos com todas as partes envolvidas. A aceitar o vazio. A respeitar o ritmo dos processos de vida. A esperar. A ser firme. A ser amoroso. A dar limites. A ser incondicional. A deixar ir. A aceitar a impotência. A tentar tudo. A irromper com lucidez. A aceitar os próprios erros e a pedir desculpa. A assumir a responsabilidade pelo vínculo. A dizer adeus com a sensação de dever cumprido. É também preciso que se diga que muitas vezes se cai de joelhos, num canto da nossa vida, para chorar as injustiças do mundo. E é disto que quero falar hoje.

Permitam-me, hoje, não escolher as palavras e não privilegiar a beleza do ser humano, como faço frequentemente nos meus textos. Hoje, dirijo-me ao lado sombrio da espécie humana e àquela vontade incontrolável de ser insensata e dar um murro na mesa. Hoje, dirijo-me também às pessoas conscientes que podem dar as mãos a muitas causas felizes e a esta também! À das crianças!

É muito difícil de aceitar que adultos façam sofrer as crianças, de forma cega e inconsequente. Uns avós responsáveis não podem raptar uma criança, arrancá-la da mãe, inventando histórias, movidos apenas pelo egoísmo. E aquele jovem pai não pode dar álcool e cigarros a uma criança de 1 ano, afirmando orgulhosamente que é assim que se forma um homem! Um vídeo com esta cena anda a circular por aí. E a justiça não pode, pura e simplesmente, centrar-se nos procedimentos e papéis e dissociar-se da dignidade humana, deixando que o tempo deixe marcas indeléveis numa criança que tem direito a ser inocente e feliz.

As pessoas mal resolvidas têm que parar de seguir mecanicamente a sua vida rotineira, movidas pelo medo de ver e de sentir, sob pena de ferirem a humanidade, em cascata! As pessoas têm que refletir sobre se estão ou não contentes com as estruturas em que vivem! E, em vez de empurrarem a vida com a barriga, morrendo devagar, têm que pedir ajuda porque não há nada mais perigoso do que exércitos de pessoas infelizes!

Uma destas muitas crianças de que falo tem 5 anos e quer ser bailarina. Todos os dias da sua vida são sonhados com esse fim, curiosamente, tal como eu quis, um dia. Fui empurrada, por uma força interior maior, para outra arte alquímica da alma, com o único e exclusivo objetivo de tentar salvar algumas inocências. E aqui estou. Sem arrependimentos, mas com a dura noção da minha impotência!

Hoje quero apenas de volta a inocência desta e de muitas outras crianças que quase só por desejarem conseguem realizar os seus sonhos, não fosse o controlo poderoso de alguns adultos transtornados pelo medo!

Que se faça justiça e que o mundo saia do vórtice de cegueira emocional! Que busque ajuda e tenha coragem de olhar, de uma vez por todas, para a sua própria Criança interna, outrora maltratada e mal amada, para assim poder interromper a cadeia repetitiva do trauma.

Hoje quero apenas expressar a minha solidariedade para com as crianças e com a Criança inocente que reside em cada um de nós!

 

 

BÁRBARA

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O seu verdadeiro nome é Bárbara.

Na mão direita, empunha uma espada azul e, na esquerda, uma fonte inesgotável de pétalas de rosa. Pode ser de uma doçura enorme, espelhada num olhar nirvânico. Outras vezes, dos seus olhos chispam raios assertivos, cortantes como a espada afiada que repousa na bainha, junto à cintura. Nenhuma dessas partes atua em contradição com a outra. São aliadas.

Bárbara é uma mulher arquetípica, com traços fortes de tudo. Difícil de amar porque não é previsível. A sua doçura tem uma musicalidade envolvente, inebriante. A sua força tem um caráter vulcânico, assustador. Como as lobas. Não tão nobre nem tão lúcida como estes seres que, por amor, são capazes de matar as suas crias em sofrimento. Mas quase. Bárbara é capaz de dar um golpe impiedoso a quem ama, para por termo àquilo que considera ser abuso de confiança. É frequentemente mal interpretada. Mas assim são as pessoas com uma forte dualidade e que são ambas as coisas e não uma só.

Poucos são aqueles que se apercebem da dor que a invade quando mostra a lâmina reluzente da sua zanga. Dobrada em posição fetal, soluça até adormecer. Faz isso na natureza. A gruta na praia ou a clareira de um bosque são frequentemente o seu refúgio para chorar, para limpar a dor do sangue derramado de um ente querido.

Bárbara nasceu com os olhos abertos, muito vivos já. Já tinham a cor que hoje tem como mulher. Foram sempre olhos decididos a ser o que queriam ser. Olhos doces, vivos, flamejantes, incisivos, penetrantes. Olhos onde alguém pode descansar, sem sobressaltos. Os seus olhos prometeram sempre força e liberdade e, nas suas pupilas, quem olhasse atentamente, já lá estava o sonho daquele amor e daquela paz.

Bárbara viveu num país que sofreu duas guerras. A guerra de uma terra sangrenta e a guerra de uma família difícil. Foi atingida várias vezes no mesmo sítio. No coração. Meninos ranhosos, de barriga grande, choravam. Ela também. Homens velhos, espancados pela vida, choravam. E ela também. A terra fértil abria-se aos seus pés e engolia os dias felizes, e chorava. Ela também. Os irmãos sofriam e ela chorava. Ela sofria e os irmãos choravam. Os pais tentavam e nem sempre conseguiam que a ternura da vida fosse tão quente como aquele sol gigante nem tão brilhante como as estrelas cravadas no céu. A doce menina viu o seu sonho distante e, para se defender, empunhou a espada azul que o seu pai lhe ensinara a usar.

Bárbara tem uma vulnerabilidade profunda que a terapia não lhe tirou. Os golpes desferidos no seu coração são sempre inesperados porque o seu primeiro olhar é sempre inocente. No instante do golpe, para a raiva não ofuscar o seu discernimento, congela. Em lapsos de tempo, a raiva vai aparecendo sob a forma de uma mente analítica brilhante que cai como uma bomba. Outras vezes, a raiva é uma voz acossada ou um olhar mortífero que atravessa. Outras vezes, ainda, é apenas uma viagem para longe do local perigoso e escasso.

Bárbara teve muitos companheiros. Todos, à exceção de um, o primeiro, tiveram medo do campo aberto, rodeado de flores silvestres, que a sua doçura tinha para oferecer. As pessoas com problemas precisam de alguém com problemas, para que o acesso ao olhar límpido e cristalino da alma seja demorado. Cada um desses homens, feridos pela vida, não resistiu a golpear o coração aberto de Bárbara, fazendo o que alguém já tinha feito com eles. Todos eles, homens sobreviventes, diamantes por lapidar, atraentes pela força e necessidade de amor. Mas não resistiram a ferir a sua própria sensibilidade, espelhada na doçura e simplicidade de Bárbara.

Quem disse que a harmonia era fácil de suportar? O que farias tu se te tirassem a mochila pesada das costas e te oferecessem um campo aberto para seres quem queres ser? Acreditas, se eu te disser, que esta leveza pode constituir a maior das dificuldades e conter uma promessa de dor? Bárbara chegou a esta conclusão e, com muita tristeza, percebeu que, neste mundo, a espada tem que ser usada.

Bárbara precisa de um homem que tenha vivido sempre no mesmo sítio, que saiba o que é arar a terra, semear e colher. Que saiba cuidar e que tenha passado longas horas à cabeceira de um filho com febre. Bárbara precisa de um homem que já tenha sofrido muito e que saiba dar valor à ternura e à partilha. Que saiba o que é ter sede e, no deserto da vida, ter tido alguém que lhe tenha humedecido os lábios. Alguém que não esquece quem lhe faz bem. Alguém que já foi muito amado. Alguém que esteve demasiado tempo vinculado às necessidades dos outros e que, agora, precise dos braços da liberdade e do amor por si próprio. Bárbara precisa de um homem que nunca tenha saído da terra onde nasceu e que precise de voar no colo de uma mulher que não tenha medo do mundo e que tenha para oferecer uma fonte inesgotável de amor. Bárbara pode ensiná-lo a voar e ele, dar-lhe chão, estrutura, presença e cuidado.

Um vem do norte e outro vem do sul. Um vem do lugar seguro e velho e o outro, do lugar instável e criativo. Ambos trazem nas mãos e nos olhos a sabedoria da ternura e o anseio da harmonia partilhada.

Nisto, discretamente, Bárbara tira a espada da bainha que traz à cintura, embrulha-a num manto azul de seda e enterra-a junto ao roseiral que se estende pelo caminho até casa.

 

PRIMEIRO ISTO E DEPOIS AQUILO

Sim, mas não 1

Que mania de fazer primeiro isto e só depois aquilo, sempre que aparece uma ideia luminosa! Primeiro vou lavar os dentes, vestir-me e comer. Só depois vou escrever sobre aquele tema sublime que me fez saltar da cama às 6h da manhã.

Não. Desta vez troquei as voltas a mim própria. Fui a correr para a sala, de camisa de noite, pus os óculos e liguei o computador. E rápido, para que não me fugissem as ideias e voltasse novamente para a cama, para o mero pensamento. Adoro escrever em estado febril. É no momento presente que as coisas acontecem. Se não for agora, será tudo diferente. O texto teria mais vírgulas do que as que verdadeiramente quero e perderia seguramente o Duende, aquele brilho único e irrepetível que emerge de um estado de profunda verdade interior. São 11h da manhã e o ato criativo não pára de fluir. Gosto da escrita assim, com o hálito matinal, o cabelo despenteado, o estômago a rugir de fome e a loiça por arrumar.

Assim é, muitas vezes, a nossa vida. Uma escolha entre fazer sempre o mesmo ou fazer diferente. Eu, que confesso ser um primor na organização pessoal, adoro trocar as voltas a mim própria e viver temporariamente num certo caos, só para não perder o Now Moment! E a verdade é que não se trata verdadeiramente de um caos, apenas da renúncia a uma lógica de funcionamento habitual.

Trago este episódio prosaico da minha vida, só para introduzir o tema que considero de suma importância.

Quantas vezes deixamos passar coisas verdadeiramente importantes, em nome do hábito? Uma, duas ou infinitas vezes?

Quantas vezes deixamos escapar um dia soalheiro e o prazer de viver, em nome de um dever conhecido e inculcado pelas nossas próprias neuroses?

Quantas vezes deixamos escapar pessoas incríveis só porque dá muito trabalho mudar de direção e fazer ajustes à própria vida?

Quantas vezes deixamos a curiosidade morrer de tédio, espartilhada pelo medo de sair do quadrado conhecido?

Quantas vezes deixamos de fazer um corte de cabelo mais ousado, pela nostalgia de um cabelo tão longo e tão bonito que toda a gente gosta tanto?

Quantas vezes dizemos “sim” a um filho, engolindo as necessidades pessoais, só para não sentir novamente uma velha culpa?

Quantas vezes não arriscamos um “não” a um filho, a um amigo, a um companheiro, perdendo a preciosa oportunidade de ver todo o sistema a reorganizar-se de uma forma bem mais saudável e criativa … só por causa da culpa ou do medo?

E quantas vezes também não paramos os impulsos patológicos e não ficamos quietos, só a sentir e a pensar na melhor atitude?

Sim. Isto de parar e calar na hora H também é levantarmo-nos de repente, às seis da manhã, e fazer diferente!

Estamos quase no fim de Maio de 2016 e acordei com uma impiedosa necessidade de gritar aos quatro ventos que é tempo de fazer escolhas livres, o que é totalmente diferente da espontaneidade irresponsável!

Acho que a Psicologia está prestes a incluir um capítulo novo nos seus “autos” sobre o Desenvolvimento. Deus queira! Fala-se tanto, a nível empresarial, de reengenharia, de saltos quânticos, em vez de mudanças incrementais, por que não adotar esse conceito às nossas vidas pessoais e à própria psicoterapia?

É importante alternar entre tolerância amorosa e a administração de um empurrão encorajador, para que a Criança que há em nós possa definitivamente crescer e escolher em liberdade.

Acredito que há de haver um momento em que já não seja necessário andar tanto às voltas do passado e do script familiar. Acredito que a humanidade se há de cansar de tantas limitações autoimpostas e que a crença nas infinitas possibilidades possa surgir mais cedo nas nossas vidas, permitindo-nos atalhar caminho e ir em direção ao que sempre sonhámos.

Agora, sim. Vou comer e arrumar tudo direitinho, tomar banho e aproveitar o dia de sol interrompido pela chuva. De uma forma bem mais presente, concerteza. A pensar só naquilo que estou a fazer.

 

NÃO, MAS SIM. SIM, MAS NÃO

Não mas sim

Perigo.

Gosto sempre de escrever histórias com “fins” harmoniosos e felizes, mas a realidade é que há histórias que não acabam assim e outras, ao invés, são difíceis e não parecem felizes, mas são. São porque conduzem sempre a algum lado, pelo menos para alguns dos personagens. São porque as histórias não chegam propriamente ao fim. Eu é que as apanho num momento significativo e resolvo eternizá-lo temporariamente, para que possamos ver melhor, pensar melhor e, quiçá, escolher o nosso caminho com mais propriedade.

Perigo.

A relação começou por um enorme desejo sexual e foi ficando mais séria. Começou por um belo dia. Tudo se conjugou para um perfeito encontro. Depois veio um fim de semana, e mais fins de semana, e agora todos, depois mais dois dias por semana e assim sucessivamente até fazerem juras de viver juntos e ter filhos.

Ela viu tudo. Viu a “possibilidade de” e também viu o fait divers. Viu o fervilhar da pele em contradição com os jogos mentais de Aquiles que entretanto já se defendia de cair nas malhas do amor maduro. Ainda assim, Afrodite continuou a desfrutar do que a vida lhe oferecia. Ou não fosse ela Afrodite. Que eu saiba, na mitologia, Afrodite não teve nada com Aquiles. Mas não faz mal. A realidade é surpreendente. Todos temos um pouco de Aquiles e de Afrodite, de Hera, de Perséfone e por aí fora.

Ele ia dando sinais de alarme. Pequenas fugas, grandes fugas, descompromissos inesperados, alternados com arrebatamentos de paixão, cumplicidade, crises de liberdade adolescente, desconversas, conflitos, rivalidade, desconsiderações, exigências contraditórias, paixão outra vez, amor… Amor? Acho que não. Aquela mulher deusa também acha que não. Seria mais uma “tentativa de”. Uma “aproximação a”.

Sempre que ele tinha saudades dela, numa das pausas ou distâncias criadas, achava que aquilo não passava de sexo e de uma profunda amizade. Sim, sim. Amor não seria concerteza. A sua mente racional tinha, sempre a postos, o pin para fugir. Todas as vezes que chegava perto de uma enorme, incontrolável, terrivelmente atraente, confortável, acolhedora, amorosa vibração ou de um forte conflito, soavam todos os alarmes. Não, ela não era seguramente o seu tipo de mulher. Era linda. E de facto era. Era sensual. De facto era. Era inteligente e bem sucedida profissionalmente. De facto era. Era paciente e amorosa. De facto era. Era autónoma. De facto era. Era livre, verdadeiramente livre. De facto era. Mas, por ser autónoma, inteligente, amorosa e com critérios de excelência, via as incoerências e reagia às desconsiderações. Mau! Muito mau! Faltava a esta mulher a perfeição. Ela insistia em curar-lhe o calcanhar e Aquiles esperneava porque se sentia preso.

O homem desta história sufoca só de pensar que se pode seriamente vincular a alguém. O amor mais sublime é aquele que ainda não aconteceu. Aquele que há de vir. Aquele que lhe permite, na imaginação, não ser confrontado com qualquer obstáculo, qualquer exigência, apenas um amor incondicional que tudo permite, diga-se, como o de algumas mães que deixam fazer tudo e ao mesmo tempo não dão o que é preciso, que não dão limites, que estão e não estão, prometendo um amor maior e abandonando frequentemente. Ambivalência.

Estamos a falar do vínculo ambivalente. E este jogo de “ai que medo de me entregar porque ela vai seguramente abandonar-me” e, ao mesmo tempo, “vou saltar fora, mas ela no fundo ama-me” conduz a atitudes de fuga à intimidade, alternadas com uma ansiedade e controlo crescentes.

Culpabilidade. É a culpabilidade que faz com que aquela mãe volte sempre ao contacto da mesma maneira. Não é que ela não tenha amor, mas a culpa não lhe permite ir mais longe e saber o que isso é. E o menino, que cresceu neste pânico de perder, nesta falta de consistência, neste vazio de amor, nesta certeza de que mesmo que ele se porte mal e faça birras ela nunca lhe dará limites e nunca o mandará embora, passa a acreditar que o amor será sempre isto: o amor atual, sempre insuficiente, mas com a promessa de que tudo poderá melhorar um dia. O menino nem entra, nem sai. Nem se vincula, nem se separa. No futuro, com as mulheres, fará o mesmo que a mãe lhe fez, até que um dia uma delas lhe dará amor a sério, lhe mostrará o que é compromisso e vínculo seguro e também lhe dará limites rigorosos e implacáveis.

Assim foi a história daquele casal. Ele bem tentou passar de um registo a outro, como se nada fosse, para não sentir a dita ansiedade de separação e o medo da perda, mantendo a distância de segurança chamada “descompromisso”. Ele não lhe chama descompromisso, como é óbvio. Isto diz Afrodite e digo eu que estudo e escrevo sobre estas matérias. Ele chama “salvaguardar uma amizade importante”. Mas ela não aceitou, claro. Ele não teve alternativa senão passar sozinho o deserto da separação. Estou certa de que no fundo da sua alma infantil há uma voz de criança que continua a dizer: “Um dia há de chegar um amor maior, um amor em que tudo flui, em que eu não precisarei de fazer nenhuma adaptação de fundo, nenhuma mudança; haverá uma mulher que seja capaz de se ajustar ao caleidoscópio infinito da minha personalidade, incluindo as mudanças repentinas de humor, os vaipes de “liberdade” e os meus próprios desencantos. Essa mulher será capaz de se metamorfosear a cada instante para acompanhar a minha energia fabulosamente complexa, neste processo contínuo de me conhecer e de me experimentar ser. Há de haver uma mulher que não necessita. Não necessita de nada. Tão sublime que nada será suficiente para a vulnerabilizar. Uma verdadeira deusa. Um dia, terei uma mãe verdadeiramente incondicional, vestida de mulher. Amar-me-á tanto e será tão igual a mim que seremos um só”.

Perigo.

O que este homem não compreende é que essa mulher mãe será sempre o seu espelho e, quando ele estiver frustrado num daqueles momentos de experimentar ser e de se conhecer, ela também estará assim. Eu sou tu e tu és eu. E ele ficará extremamente irritado, achando que aquela coisa desagradável e feia é ela. Ele não. Essa coisa feia e má é ela! Chama-se a isto Simbiose. E a Simbiose conduz infalivelmente os indivíduos à frustração. Informo que a simbiose só é saudável até aos 8 meses de idade. A seguir, se permanecer, cavará o fosso emocional entre os seus atores que lutarão consecutivamente com múltiplas projeções psíquicas. Juntos para sempre, mas nas guerras conhecidas e num certo longing por aquele amor… enquanto alguns optam por se separar e continuar a saga da procura do Graal. Trabalhoso, sem dúvida.

Passou um ano. Afrodite fez o luto. Aquiles reapareceu. Ela permitiu o encontro. À medida que a conversa ia avançando, Afrodite reparou que Aquiles continuava ferido no mesmo calcanhar. Viria ele confessar a falta que ela lhe fez? Viria ele reconhecer que gostaria de poder reatar a relação de amor? Não. Veio dizer que estava absolutamente resolvido, mas com uma coisa estranha a acontecer. O desejo por ela continuava de tal ordem grande, mesmo à distância, que ele não conseguia prosseguir a sua vida com outras pessoas. Que seria isto? Ele não a ama, está absolutamente certo de que a separação foi a melhor decisão que ele poderia ter tomado, mas o desejo por ela tinha vida própria e intrometia-se a cada instante, nos momentos mais inconvenientes. E esta? Afrodite (mais Héstia sábia do que outra coisa) ficou atónita. Sem mostrar, claro. Continuou como se nada fosse, como se, de mãos dadas, o conduzisse pelos meandros da sua própria clivagem.

Clivagem é o termo. Aquiles vive entre os dois pólos, cabeça e sexo. O coração continua fechado e, portanto, sem poder fazer ligações emocionalmente inteligentes. Em nenhum momento entendeu que ele talvez gostasse mesmo dela. Que talvez valesse a pena viver aquele amor e aprimorá-lo herculeamente. Que talvez seja isso a perfeição. Um encontro entre dois seres cheios de particularidades e cumplicidades fortes, em processo contínuo de evolução. Um encontro entre dois seres que, na ausência um do outro, se apercebem da durabilidade dos sentimentos e da presença forte de ambos, que impregna todo o espaço à volta. Em nenhum momento ele percebeu que para se ter o amor perfeito não se pode abandonar o barco e continuar a ser o menino mimado à espera da tal mulher mãe. Em nenhum momento ele percebeu que a perfeição é imperfeita e que é por isso que existimos. Para curar os nossos calcanhares de Aquiles e nos transformarmos em homens e mulheres livres e, ao mesmo tempo, simples e serenos em relação à Vida. Ele infelizmente ainda não percebeu que a infância nunca mais volta e que essa mãe incondicional também não existe dessa maneira. Que ele é homem e é responsável por transcender a sua história e crescer. E que só existem mães que fazem o melhor que sabem e se arriscam a educar. Que umas são mais bem sucedidas do que outras e que todas elas tiveram mãe. Ele não entende que a perfeição é ser-se humano e crescer continuamente, com os olhos postos no horizonte divinamente perfeito da nossa imaginação. Que ser perfeito é ser-se humano e misturar-se paritária e humildemente com todos os seres que erram, sem paternalismo. É ser-se humano, imperfeito e nobre, feio e bonito, forte e vulnerável, com prazer e dor. Sempre em movimento! Imperfeito! Com os olhos postos no horizonte divino da nossa imaginação!

Não interessa o fim da história. Apenas o episódio. Afrodite saiu do jogo da ambivalência e nunca mais regressou a ele. Aquiles terá que viver ainda muitas desilusões e equívocos semelhantes, repetindo, repetindo, repetindo … até um dia … ou… sempre…

Aquiles poderia ter decidido ser o Pedro do Poema de Gratidão que escrevi em tempos. Optou antes por continuar a surfar nas ondas do sim, mas não, não, mas sim. É por estes misteriosos motivos que não podemos deixar de acreditar na transformação do Homem. Está-se na fronteira, na ponte ou em alto mar e, de repente, devagar, escolho uma saída mais plena. Ou, então, escolho viver coerentemente dentro dos limites definidos pela ferida artrítica do meu calcanhar, sem ludibriar os outros. Ambas as saídas são transformadoras.

E para os que ficarem no sim, mas não, não, mas sim, não sei o que poderá acontecer. A história deste Aquiles em concreto continua, o mais certo, longe da minha observação e da de Afrodite. Noutros lugares do mundo, a vida continuará a acontecer-lhe e a oferecer-lhe as suas infinitas oportunidades. Quem sabe?

 

Nota 1: estão salvaguardadas todas as regras de sigilo profissional.

Nota 2: o recurso aos nomes de Aquiles e de Afrodite é para simbolizar apenas o tema da vulnerabilidade do personagem masculino e o tema da sexualidade/sensualidade que aquele atribui à mulher da história.