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SILÊNCIO

No início não havia palavra.

 

Só quando os corpos se rasgaram

E os corações deixaram de se ouvir bater

Precisaram os homens de criar outra forma de comunicar.

 

Oxalá pudéssemos manter entre nós

A infinitude do silêncio

Melodia

De Amor profundo!

 

A vida é uma espécie de ensaio

Para aquela cena sublime

Que se passará ali

Naquele tempo

Naquele espaço

Onde tudo fará sentido .

 

Darei a vida

A vida toda por esse silêncio!

 

A ESPERA

Quanta saudade!

Em cada dia que passa, amontoam-se imagens no lugar de experiências vivas. No entanto, é como se tivessem vida. Arrepia-se-me a pele, acelera-se-me o coração, ruborizo, humidifica-se-me o olhar e adocica-se-me a boca. As mãos, essas, acariciam-te o rosto dentro de mim, sem nunca esquecer a tua nuca que é só minha.

Aqui estou, à espera do tempo. Dou-me conta de que sempre esperei muito. A espera tem sido a tónica da minha vida. Ao que parece, a tua também. Há muita espera nas nossas histórias. Já merecemos chegar. Quando teremos nós essa sensação? De termos chegado àquela ilha encantada onde, como tu dizes, alguém irremediavelmente nos espera?

Não tenhamos medo de chegar. Não é verdade que a realização do sonho se transforma sempre em pesadelo ou em algo desinteressante. Não é verdade que o melhor está sempre longe. Não. O melhor está sempre aqui. Dentro de nós.

Todas as pessoas nos dizem respeito, evidentemente. Trazem-nos sempre uma lição, e nós a elas. Mas depois, é hora de partir. São às vezes precisas muitas vidas para encontrarmos alguém que nos diga mesmo respeito, no que se refere ao melhor de nós. Basta persistir. Há compromissos que não cumpriram ainda o destino da viagem.

Bem sei que é preciso ter coragem.

 

ESCRITOR DE SONHOS

Corro atrás das pistas que ele vai deixando no caminho, como uma espécie de Sherlock Holmes das coisas do bem. Perseguindo-as, encontro-nos aos dois e agradeço.

Dou-me conta de que toda a vida procurei algo mágico que sempre soube que existia. A Humanidade também sabe que existe, creio eu! Por que prossegue Ela, então, com vidas tão programadas, longe daquilo que poderia tão bem ser?

Espanto-me!

Vivo uma vida com muitas pausas, só para poder ler e escutar o silêncio, não vão os dias escapar-se-me por entre os dedos e levar-me toda a esperança.

Nesse lugar tranquilo do meu ser, vejo claramente os momentos marcantes da minha vida – o que me lançou irremediavelmente para os braços de uma Felicidade não dizível por palavras.

Foi numa dessas pausas que o Escritor cruzou o meu céu, enchendo-o de noites estreladas, arco-íris e auroras belíssimas.

O tempo trouxe-me os anos certos e entregou-me, em mãos e boca, o reflexo dos meus sonhos.

Escuto-o com muita atenção, compreendendo melhor quem sou.

Sinto-o ali, decalcado no meu corpo e no meu espírito.

Leio-o avidamente.

Comovida, seguro-o com força junto ao peito, e adormeço.

 

MANHÃS

Preparar-te-ia

Se pudesse

Pequenos almoços deliciosos

No primeiro sol da manhã

Enquanto tu

Absorto e livre

Escrevesses livros.

Depois

Comeríamos juntos.

Tu contar-me-ias por onde viajavas

Dentro da tua prodigiosa imaginação.

E eu falar-te-ia sobre ingredientes de amor:

Rosmaninho, sal e mel.

 

A PRIMEIRA CARTA

África. 7 de Dezembro de 2018.

“Querido Pássaro,

Os teus dias são o poema mais lindo deste mundo.

Depois daquele dia em Dezembro, os nossos sonhos ficaram de mãos dadas no céu. Sabias?

És tu o meu Dezembro, o meu Fevereiro também, mágico Valentim. És agora os meus dias passados a desfiar pássaros no cabelo, ao mínimo esvoaçar do pensamento. Não só pensamento. Agora já tenho o arrepio dos teus voos na pele, que se fartam de me acordar a toda a hora.

Fazes-me feliz só de te pensar. Já para não falar dessa paixão que vem de ti e se mistura com a minha e que dá a história mais bonita que existe no Reino das princesas africanas há muito desenraizadas.

Quero-te assim, de cabelos revoltos, misturados com os meus dedos, nuca disponível para o meu desejo, e muita pele generosa, qual terra firme e acolhedora dos meus sonhos e segredos. E quero ser eu a limpar-te as lágrimas.

Tens o condão de me tornar generosa. Apetece-me dar-te-me, dar-te-me, dar-te-me.

Quero passear contigo numa destas manhãs, antes de nos perdermos um do outro por entre festejos, afazeres e afins. Se não for possível, quero amanhã olhar para ti para que vejas como te trago nos olhos. Mar de violetas e um pestanejar que soará sempre como o bater de asas de pássaros em dias felizes.

Espero por ti”.

O PRAZER DE VIVER

O tema do prazer remete-me imediatamente para o deleite dos sentidos e para o desejo de viver. Estar vivo significa sentir o corpo aqui e agora, estar consciente da nossa natureza animal.

Segundo a Análise Bioenergética, o ego, com todo o seu conhecimento racional, é trémulo e inseguro se não estiver firmemente apoiado na realidade do corpo e dos seus sentimentos. Quando o ego tem as suas raízes no corpo, o indivíduo ganha perceção de si próprio. Se, pelo contrário, as suas raízes forem arrancadas do solo, o indivíduo sentir-se-á envergonhado do seu corpo e culpado em relação aos seus sentimentos, perdendo o sentido da identidade.

Arrisco afirmar que viver o prazer implica aproximarmo-nos da nossa natureza instintiva. Isso não significa desestruturação. Não significa perder as socializações básicas ou tornarmo-nos menos humanos. Significa exatamente o oposto: estar no encalço da nossa profunda integridade.

Aproximarmo-nos da nossa natureza instintiva implica delimitar territórios, encontrar o nosso grupo de pertença, ocupar o nosso corpo com segurança e orgulho, independentemente dos dons e das limitações desse corpo, falar e agir em defesa própria, seguir o rasto da verdade, estar consciente, alerta, recorrer aos poderes da intuição, descobrir o lugar a que pertencemos. É ter direito ao fruto completo, é o fogo criador, é a sexualidade integrada com a ternura, é seguir o instinto e a intuição.

O indivíduo, no pleno gozo do seu prazer de viver, é devoto, trabalha arduamente na direção certa e repousa sempre que o corpo dá sinais. Tem um enorme respeito pela realidade cíclica do corpo e da vida.

Segundo a psicologia Jungiana, a vida instintiva está diretamente ligada à lembrança de um parentesco absoluto com o lado selvagem, mais antigo que nós próprios, que a nossa família de origem. O lado selvagem não é descontrolado. Significa, sim, viver uma vida natural na qual estão presentes uma integridade inata e limites saudáveis.

Quando são cortados os vínculos de um indivíduo com a sua fonte de origem, ele fica esterilizado, os seus instintos e ciclos naturais são perdidos em virtude de uma subordinação à cultura, ao intelecto, ao ego desenraizado.

Quando os nossos ciclos de sexualidade, criatividade, trabalho e diversão são restabelecidos, deixamos de ser alvo para as actividades predatórias dos outros.

Esta natureza instintiva é a terra profunda que habita o nosso corpo e a nossa alma. Por isso, precisa de ser despertada, lavrada, regada, adubada, remexida para que as sementes arquetípicas do prazer possam germinar e encher a nossa vida de verdadeiras tristezas e alegrias e, assim, nos indicarem o caminho. A nossa natureza instintiva é aquela que nos diz “Vai por aqui”.

Viver o prazer é viver integrado com a vasta gama de emoções, com o instinto e com o respeito pelos limites, com os sons da natureza, com as cores, com os sabores e odores inexplicáveis do fruto da terra, com os arrepios na pele – de frio, de calor, de suavidade, da brisa fresca, de dor, de amor. É viver em conformidade com a natureza extática da vida, é comovermo-nos com o belo, com o tremendamente simples, com aquilo que está alinhado, e solidarizarmo-nos com a ovelha tresmalhada do rebanho. Ter prazer é estar inteiro e ser profundamente verdadeiro nas próprias escolhas.

O trabalho terapêutico sobre o Prazer é um trabalho sobre o despertar dos sentidos e da intuição; é cantar sobre a ferida até sarar; é “massajar” muito os pés e reaprender a andar, para sentir a marca do chão no pé inteiro; é um trabalho sobre o deixar ir o controlo obsessivo e conhecer a força da energia que vibra cá dentro. É um trabalho sobre a vivência da sensualidade, movimento que vem das profundezas, seguro e saudável, e que acorre à pele, aos olhos, aos gestos, à voz, ao outro. É também um trabalho sobre o sonho. É andar desvairado à procura da nota vibrante da existência e, quando se  encontra, correr muito depressa com Ela nos braços e com milhares de estrelas nos olhos. Por vezes, é estar num estado febril de inspiração e é começar de novo, apesar das memórias de dor. É dar espaço ao imprevisível e dar voz a talentos escondidos à espera de uma oportunidade.

O Prazer de viver é uma expressão do Amor. No seu significado mais profundo, é uma canção inesquecível que reverbera nas nossas fibras musculares e nos caminhos que nos intersetam com os outros. É a nota contagiante que pode curar doenças, salvar as nossas relações e o sonho da humanidade.

 

 

PÉ DE FLOR

Ao pé de ti

pé de flor

trago de novo a primavera.

Vês?

 

Teimosa

dançou sempre em mim nas

noites frias da saudade e

sonhou todos os meus dias!

 

Sempre soube que virias e

que bastaria eu ver-te!

 

Bastaria eu ver-te e

tudo cá dentro brotaria em flor

dissipando-se a nuvem das noites frias e

o som triste das brincadeiras contidas.

 

Ao pé de ti

outra vez

pé de flor.

Sorrio e agradeço

muito

tanto

o teu persistente Amor!

HOMENAGEM

Quem seria eu sem a minha sombra?

Uma simples forma linear, de luz incandescente, no fim da história.

Quem seria eu sem a fonte de lágrimas que me habita?

Uma melodia que ressoaria estridente na paisagem dolorosamente seca.

Quem seria eu sem o dom da indignação?

Uma viagem em linha reta, sem redefinição da trajetória.

Quem seria eu sem a minha luz?

Uma corrida incessante atrás de alguém.

Um tropeção sem queda,

Uma ferida sem dor,

Um grito sem som, uma perseguição.

E quem seria eu sem te ter tido ao meu lado?

Seguramente seria outra pessoa que não eu,

Esta tonalidade irrepetível que, num momento de êxtase, conheceu o Amor.

HÁ NOS OLHOS TEUS

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Há nos olhos teus ardor e luz, aquele desejo furacão, fogo anunciador de um enorme ímpeto vital…

Notas dissonantes me chegam do teu corpo maltratado, um tanto estagnado, profundamente triste, longe desse olhar que te denuncia.

Que poderei fazer para te ajudar? Eu, que tenho esperado tantos anos pela chispa de um olhar… Eu, que acordei tudo em mim desde que me miraste daquela maneira, naquele dia …

Apaixonei-me pelos teus olhos e quero mimar o teu corpo, até que ele recupere o campo lavrado que é dele por direito…

Quero domesticar a tua domesticação e mandá-la respirar para longe, de onde ela mesma possa ver o teu porte majestoso, imperador, vital … e render-se à tua beleza.

Quero cantar meticulosamente sobre cada célula estagnada do teu corpo, sobre a juventude que te ficou interrompida e vê-la desabrochar novamente como todas as primaveras.

Quero ver-te caminhar no teu eixo perfeito, em múltiplas direções, em diferentes ritmos, em linhas retas, em curvas, em giros, em flechas assertivas, em passos amorosos, lentos, demorados. Tudo. Tudo a que tem direito esse teu corpo à espera de ser direcionado pelos olhos mais lindos que alguma vez vi. Os teus. Cheios de poemas e prosas. Cheios de vida.

 

HOJE QUERO APENAS!

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Fotografia de: Maria Inês de Brito

 

O que me moveu a ser psicoterapeuta, sacrificando uma carreira na dança, foi o sonho de ajudar as pessoas a serem mais felizes. Precisei de atravessar o universo da minha própria fragilidade e aprender a aceitar o sofrimento nos olhos das pessoas e nos meus próprios olhos. É preciso que se diga que o caminho de um psicoterapeuta por devoção é solitário e exigente. Obriga-nos a ser justos. A ser compreensivos com todas as partes envolvidas. A aceitar o vazio. A respeitar o ritmo dos processos de vida. A esperar. A ser firme. A ser amoroso. A dar limites. A ser incondicional. A deixar ir. A aceitar a impotência. A tentar tudo. A irromper com lucidez. A aceitar os próprios erros e a pedir desculpa. A assumir a responsabilidade pelo vínculo. A dizer adeus com a sensação de dever cumprido. É também preciso que se diga que muitas vezes se cai de joelhos, num canto da nossa vida, para chorar as injustiças do mundo. E é disto que quero falar hoje.

Permitam-me, hoje, não escolher as palavras e não privilegiar a beleza do ser humano, como faço frequentemente nos meus textos. Hoje, dirijo-me ao lado sombrio da espécie humana e àquela vontade incontrolável de ser insensata e dar um murro na mesa. Hoje, dirijo-me também às pessoas conscientes que podem dar as mãos a muitas causas felizes e a esta também! À das crianças!

É muito difícil de aceitar que adultos façam sofrer as crianças, de forma cega e inconsequente. Uns avós responsáveis não podem raptar uma criança, arrancá-la da mãe, inventando histórias, movidos apenas pelo egoísmo. E aquele jovem pai não pode dar álcool e cigarros a uma criança de 1 ano, afirmando orgulhosamente que é assim que se forma um homem! Um vídeo com esta cena anda a circular por aí. E a justiça não pode, pura e simplesmente, centrar-se nos procedimentos e papéis e dissociar-se da dignidade humana, deixando que o tempo deixe marcas indeléveis numa criança que tem direito a ser inocente e feliz.

As pessoas mal resolvidas têm que parar de seguir mecanicamente a sua vida rotineira, movidas pelo medo de ver e de sentir, sob pena de ferirem a humanidade, em cascata! As pessoas têm que refletir sobre se estão ou não contentes com as estruturas em que vivem! E, em vez de empurrarem a vida com a barriga, morrendo devagar, têm que pedir ajuda porque não há nada mais perigoso do que exércitos de pessoas infelizes!

Uma destas muitas crianças de que falo tem 5 anos e quer ser bailarina. Todos os dias da sua vida são sonhados com esse fim, curiosamente, tal como eu quis, um dia. Fui empurrada, por uma força interior maior, para outra arte alquímica da alma, com o único e exclusivo objetivo de tentar salvar algumas inocências. E aqui estou. Sem arrependimentos, mas com a dura noção da minha impotência!

Hoje quero apenas de volta a inocência desta e de muitas outras crianças que quase só por desejarem conseguem realizar os seus sonhos, não fosse o controlo poderoso de alguns adultos transtornados pelo medo!

Que se faça justiça e que o mundo saia do vórtice de cegueira emocional! Que busque ajuda e tenha coragem de olhar, de uma vez por todas, para a sua própria Criança interna, outrora maltratada e mal amada, para assim poder interromper a cadeia repetitiva do trauma.

Hoje quero apenas expressar a minha solidariedade para com as crianças e com a Criança inocente que reside em cada um de nós!