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BÁRBARA

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O seu verdadeiro nome é Bárbara.

Na mão direita, empunha uma espada azul e, na esquerda, uma fonte inesgotável de pétalas de rosa. Pode ser de uma doçura enorme, espelhada num olhar nirvânico. Outras vezes, dos seus olhos chispam raios assertivos, cortantes como a espada afiada que repousa na bainha, junto à cintura. Nenhuma dessas partes atua em contradição com a outra. São aliadas.

Bárbara é uma mulher arquetípica, com traços fortes de tudo. Difícil de amar porque não é previsível. A sua doçura tem uma musicalidade envolvente, inebriante. A sua força tem um caráter vulcânico, assustador. Como as lobas. Não tão nobre nem tão lúcida como estes seres que, por amor, são capazes de matar as suas crias em sofrimento. Mas quase. Bárbara é capaz de dar um golpe impiedoso a quem ama, para por termo àquilo que considera ser abuso de confiança. É frequentemente mal interpretada. Mas assim são as pessoas com uma forte dualidade e que são ambas as coisas e não uma só.

Poucos são aqueles que se apercebem da dor que a invade quando mostra a lâmina reluzente da sua zanga. Dobrada em posição fetal, soluça até adormecer. Faz isso na natureza. A gruta na praia ou a clareira de um bosque são frequentemente o seu refúgio para chorar, para limpar a dor do sangue derramado de um ente querido.

Bárbara nasceu com os olhos abertos, muito vivos já. Já tinham a cor que hoje tem como mulher. Foram sempre olhos decididos a ser o que queriam ser. Olhos doces, vivos, flamejantes, incisivos, penetrantes. Olhos onde alguém pode descansar, sem sobressaltos. Os seus olhos prometeram sempre força e liberdade e, nas suas pupilas, quem olhasse atentamente, já lá estava o sonho daquele amor e daquela paz.

Bárbara viveu num país que sofreu duas guerras. A guerra de uma terra sangrenta e a guerra de uma família difícil. Foi atingida várias vezes no mesmo sítio. No coração. Meninos ranhosos, de barriga grande, choravam. Ela também. Homens velhos, espancados pela vida, choravam. E ela também. A terra fértil abria-se aos seus pés e engolia os dias felizes, e chorava. Ela também. Os irmãos sofriam e ela chorava. Ela sofria e os irmãos choravam. Os pais tentavam e nem sempre conseguiam que a ternura da vida fosse tão quente como aquele sol gigante nem tão brilhante como as estrelas cravadas no céu. A doce menina viu o seu sonho distante e, para se defender, empunhou a espada azul que o seu pai lhe ensinara a usar.

Bárbara tem uma vulnerabilidade profunda que a terapia não lhe tirou. Os golpes desferidos no seu coração são sempre inesperados porque o seu primeiro olhar é sempre inocente. No instante do golpe, para a raiva não ofuscar o seu discernimento, congela. Em lapsos de tempo, a raiva vai aparecendo sob a forma de uma mente analítica brilhante que cai como uma bomba. Outras vezes, a raiva é uma voz acossada ou um olhar mortífero que atravessa. Outras vezes, ainda, é apenas uma viagem para longe do local perigoso e escasso.

Bárbara teve muitos companheiros. Todos, à exceção de um, o primeiro, tiveram medo do campo aberto, rodeado de flores silvestres, que a sua doçura tinha para oferecer. As pessoas com problemas precisam de alguém com problemas, para que o acesso ao olhar límpido e cristalino da alma seja demorado. Cada um desses homens, feridos pela vida, não resistiu a golpear o coração aberto de Bárbara, fazendo o que alguém já tinha feito com eles. Todos eles, homens sobreviventes, diamantes por lapidar, atraentes pela força e necessidade de amor. Mas não resistiram a ferir a sua própria sensibilidade, espelhada na doçura e simplicidade de Bárbara.

Quem disse que a harmonia era fácil de suportar? O que farias tu se te tirassem a mochila pesada das costas e te oferecessem um campo aberto para seres quem queres ser? Acreditas, se eu te disser, que esta leveza pode constituir a maior das dificuldades e conter uma promessa de dor? Bárbara chegou a esta conclusão e, com muita tristeza, percebeu que, neste mundo, a espada tem que ser usada.

Bárbara precisa de um homem que tenha vivido sempre no mesmo sítio, que saiba o que é arar a terra, semear e colher. Que saiba cuidar e que tenha passado longas horas à cabeceira de um filho com febre. Bárbara precisa de um homem que já tenha sofrido muito e que saiba dar valor à ternura e à partilha. Que saiba o que é ter sede e, no deserto da vida, ter tido alguém que lhe tenha humedecido os lábios. Alguém que não esquece quem lhe faz bem. Alguém que já foi muito amado. Alguém que esteve demasiado tempo vinculado às necessidades dos outros e que, agora, precise dos braços da liberdade e do amor por si próprio. Bárbara precisa de um homem que nunca tenha saído da terra onde nasceu e que precise de voar no colo de uma mulher que não tenha medo do mundo e que tenha para oferecer uma fonte inesgotável de amor. Bárbara pode ensiná-lo a voar e ele, dar-lhe chão, estrutura, presença e cuidado.

Um vem do norte e outro vem do sul. Um vem do lugar seguro e velho e o outro, do lugar instável e criativo. Ambos trazem nas mãos e nos olhos a sabedoria da ternura e o anseio da harmonia partilhada.

Nisto, discretamente, Bárbara tira a espada da bainha que traz à cintura, embrulha-a num manto azul de seda e enterra-a junto ao roseiral que se estende pelo caminho até casa.

 

PRIMEIRO ISTO E DEPOIS AQUILO

Sim, mas não 1

Que mania de fazer primeiro isto e só depois aquilo, sempre que aparece uma ideia luminosa! Primeiro vou lavar os dentes, vestir-me e comer. Só depois vou escrever sobre aquele tema sublime que me fez saltar da cama às 6h da manhã.

Não. Desta vez troquei as voltas a mim própria. Fui a correr para a sala, de camisa de noite, pus os óculos e liguei o computador. E rápido, para que não me fugissem as ideias e voltasse novamente para a cama, para o mero pensamento. Adoro escrever em estado febril. É no momento presente que as coisas acontecem. Se não for agora, será tudo diferente. O texto teria mais vírgulas do que as que verdadeiramente quero e perderia seguramente o Duende, aquele brilho único e irrepetível que emerge de um estado de profunda verdade interior. São 11h da manhã e o ato criativo não pára de fluir. Gosto da escrita assim, com o hálito matinal, o cabelo despenteado, o estômago a rugir de fome e a loiça por arrumar.

Assim é, muitas vezes, a nossa vida. Uma escolha entre fazer sempre o mesmo ou fazer diferente. Eu, que confesso ser um primor na organização pessoal, adoro trocar as voltas a mim própria e viver temporariamente num certo caos, só para não perder o Now Moment! E a verdade é que não se trata verdadeiramente de um caos, apenas da renúncia a uma lógica de funcionamento habitual.

Trago este episódio prosaico da minha vida, só para introduzir o tema que considero de suma importância.

Quantas vezes deixamos passar coisas verdadeiramente importantes, em nome do hábito? Uma, duas ou infinitas vezes?

Quantas vezes deixamos escapar um dia soalheiro e o prazer de viver, em nome de um dever conhecido e inculcado pelas nossas próprias neuroses?

Quantas vezes deixamos escapar pessoas incríveis só porque dá muito trabalho mudar de direção e fazer ajustes à própria vida?

Quantas vezes deixamos a curiosidade morrer de tédio, espartilhada pelo medo de sair do quadrado conhecido?

Quantas vezes deixamos de fazer um corte de cabelo mais ousado, pela nostalgia de um cabelo tão longo e tão bonito que toda a gente gosta tanto?

Quantas vezes dizemos “sim” a um filho, engolindo as necessidades pessoais, só para não sentir novamente uma velha culpa?

Quantas vezes não arriscamos um “não” a um filho, a um amigo, a um companheiro, perdendo a preciosa oportunidade de ver todo o sistema a reorganizar-se de uma forma bem mais saudável e criativa … só por causa da culpa ou do medo?

E quantas vezes também não paramos os impulsos patológicos e não ficamos quietos, só a sentir e a pensar na melhor atitude?

Sim. Isto de parar e calar na hora H também é levantarmo-nos de repente, às seis da manhã, e fazer diferente!

Estamos quase no fim de Maio de 2016 e acordei com uma impiedosa necessidade de gritar aos quatro ventos que é tempo de fazer escolhas livres, o que é totalmente diferente da espontaneidade irresponsável!

Acho que a Psicologia está prestes a incluir um capítulo novo nos seus “autos” sobre o Desenvolvimento. Deus queira! Fala-se tanto, a nível empresarial, de reengenharia, de saltos quânticos, em vez de mudanças incrementais, por que não adotar esse conceito às nossas vidas pessoais e à própria psicoterapia?

É importante alternar entre tolerância amorosa e a administração de um empurrão encorajador, para que a Criança que há em nós possa definitivamente crescer e escolher em liberdade.

Acredito que há de haver um momento em que já não seja necessário andar tanto às voltas do passado e do script familiar. Acredito que a humanidade se há de cansar de tantas limitações autoimpostas e que a crença nas infinitas possibilidades possa surgir mais cedo nas nossas vidas, permitindo-nos atalhar caminho e ir em direção ao que sempre sonhámos.

Agora, sim. Vou comer e arrumar tudo direitinho, tomar banho e aproveitar o dia de sol interrompido pela chuva. De uma forma bem mais presente, concerteza. A pensar só naquilo que estou a fazer.

 

NÃO, MAS SIM. SIM, MAS NÃO

Não mas sim

Perigo.

Gosto sempre de escrever histórias com “fins” harmoniosos e felizes, mas a realidade é que há histórias que não acabam assim e outras, ao invés, são difíceis e não parecem felizes, mas são. São porque conduzem sempre a algum lado, pelo menos para alguns dos personagens. São porque as histórias não chegam propriamente ao fim. Eu é que as apanho num momento significativo e resolvo eternizá-lo temporariamente, para que possamos ver melhor, pensar melhor e, quiçá, escolher o nosso caminho com mais propriedade.

Perigo.

A relação começou por um enorme desejo sexual e foi ficando mais séria. Começou por um belo dia. Tudo se conjugou para um perfeito encontro. Depois veio um fim de semana, e mais fins de semana, e agora todos, depois mais dois dias por semana e assim sucessivamente até fazerem juras de viver juntos e ter filhos.

Ela viu tudo. Viu a “possibilidade de” e também viu o fait divers. Viu o fervilhar da pele em contradição com os jogos mentais de Aquiles que entretanto já se defendia de cair nas malhas do amor maduro. Ainda assim, Afrodite continuou a desfrutar do que a vida lhe oferecia. Ou não fosse ela Afrodite. Que eu saiba, na mitologia, Afrodite não teve nada com Aquiles. Mas não faz mal. A realidade é surpreendente. Todos temos um pouco de Aquiles e de Afrodite, de Hera, de Perséfone e por aí fora.

Ele ia dando sinais de alarme. Pequenas fugas, grandes fugas, descompromissos inesperados, alternados com arrebatamentos de paixão, cumplicidade, crises de liberdade adolescente, desconversas, conflitos, rivalidade, desconsiderações, exigências contraditórias, paixão outra vez, amor… Amor? Acho que não. Aquela mulher deusa também acha que não. Seria mais uma “tentativa de”. Uma “aproximação a”.

Sempre que ele tinha saudades dela, numa das pausas ou distâncias criadas, achava que aquilo não passava de sexo e de uma profunda amizade. Sim, sim. Amor não seria concerteza. A sua mente racional tinha, sempre a postos, o pin para fugir. Todas as vezes que chegava perto de uma enorme, incontrolável, terrivelmente atraente, confortável, acolhedora, amorosa vibração ou de um forte conflito, soavam todos os alarmes. Não, ela não era seguramente o seu tipo de mulher. Era linda. E de facto era. Era sensual. De facto era. Era inteligente e bem sucedida profissionalmente. De facto era. Era paciente e amorosa. De facto era. Era autónoma. De facto era. Era livre, verdadeiramente livre. De facto era. Mas, por ser autónoma, inteligente, amorosa e com critérios de excelência, via as incoerências e reagia às desconsiderações. Mau! Muito mau! Faltava a esta mulher a perfeição. Ela insistia em curar-lhe o calcanhar e Aquiles esperneava porque se sentia preso.

O homem desta história sufoca só de pensar que se pode seriamente vincular a alguém. O amor mais sublime é aquele que ainda não aconteceu. Aquele que há de vir. Aquele que lhe permite, na imaginação, não ser confrontado com qualquer obstáculo, qualquer exigência, apenas um amor incondicional que tudo permite, diga-se, como o de algumas mães que deixam fazer tudo e ao mesmo tempo não dão o que é preciso, que não dão limites, que estão e não estão, prometendo um amor maior e abandonando frequentemente. Ambivalência.

Estamos a falar do vínculo ambivalente. E este jogo de “ai que medo de me entregar porque ela vai seguramente abandonar-me” e, ao mesmo tempo, “vou saltar fora, mas ela no fundo ama-me” conduz a atitudes de fuga à intimidade, alternadas com uma ansiedade e controlo crescentes.

Culpabilidade. É a culpabilidade que faz com que aquela mãe volte sempre ao contacto da mesma maneira. Não é que ela não tenha amor, mas a culpa não lhe permite ir mais longe e saber o que isso é. E o menino, que cresceu neste pânico de perder, nesta falta de consistência, neste vazio de amor, nesta certeza de que mesmo que ele se porte mal e faça birras ela nunca lhe dará limites e nunca o mandará embora, passa a acreditar que o amor será sempre isto: o amor atual, sempre insuficiente, mas com a promessa de que tudo poderá melhorar um dia. O menino nem entra, nem sai. Nem se vincula, nem se separa. No futuro, com as mulheres, fará o mesmo que a mãe lhe fez, até que um dia uma delas lhe dará amor a sério, lhe mostrará o que é compromisso e vínculo seguro e também lhe dará limites rigorosos e implacáveis.

Assim foi a história daquele casal. Ele bem tentou passar de um registo a outro, como se nada fosse, para não sentir a dita ansiedade de separação e o medo da perda, mantendo a distância de segurança chamada “descompromisso”. Ele não lhe chama descompromisso, como é óbvio. Isto diz Afrodite e digo eu que estudo e escrevo sobre estas matérias. Ele chama “salvaguardar uma amizade importante”. Mas ela não aceitou, claro. Ele não teve alternativa senão passar sozinho o deserto da separação. Estou certa de que no fundo da sua alma infantil há uma voz de criança que continua a dizer: “Um dia há de chegar um amor maior, um amor em que tudo flui, em que eu não precisarei de fazer nenhuma adaptação de fundo, nenhuma mudança; haverá uma mulher que seja capaz de se ajustar ao caleidoscópio infinito da minha personalidade, incluindo as mudanças repentinas de humor, os vaipes de “liberdade” e os meus próprios desencantos. Essa mulher será capaz de se metamorfosear a cada instante para acompanhar a minha energia fabulosamente complexa, neste processo contínuo de me conhecer e de me experimentar ser. Há de haver uma mulher que não necessita. Não necessita de nada. Tão sublime que nada será suficiente para a vulnerabilizar. Uma verdadeira deusa. Um dia, terei uma mãe verdadeiramente incondicional, vestida de mulher. Amar-me-á tanto e será tão igual a mim que seremos um só”.

Perigo.

O que este homem não compreende é que essa mulher mãe será sempre o seu espelho e, quando ele estiver frustrado num daqueles momentos de experimentar ser e de se conhecer, ela também estará assim. Eu sou tu e tu és eu. E ele ficará extremamente irritado, achando que aquela coisa desagradável e feia é ela. Ele não. Essa coisa feia e má é ela! Chama-se a isto Simbiose. E a Simbiose conduz infalivelmente os indivíduos à frustração. Informo que a simbiose só é saudável até aos 8 meses de idade. A seguir, se permanecer, cavará o fosso emocional entre os seus atores que lutarão consecutivamente com múltiplas projeções psíquicas. Juntos para sempre, mas nas guerras conhecidas e num certo longing por aquele amor… enquanto alguns optam por se separar e continuar a saga da procura do Graal. Trabalhoso, sem dúvida.

Passou um ano. Afrodite fez o luto. Aquiles reapareceu. Ela permitiu o encontro. À medida que a conversa ia avançando, Afrodite reparou que Aquiles continuava ferido no mesmo calcanhar. Viria ele confessar a falta que ela lhe fez? Viria ele reconhecer que gostaria de poder reatar a relação de amor? Não. Veio dizer que estava absolutamente resolvido, mas com uma coisa estranha a acontecer. O desejo por ela continuava de tal ordem grande, mesmo à distância, que ele não conseguia prosseguir a sua vida com outras pessoas. Que seria isto? Ele não a ama, está absolutamente certo de que a separação foi a melhor decisão que ele poderia ter tomado, mas o desejo por ela tinha vida própria e intrometia-se a cada instante, nos momentos mais inconvenientes. E esta? Afrodite (mais Héstia sábia do que outra coisa) ficou atónita. Sem mostrar, claro. Continuou como se nada fosse, como se, de mãos dadas, o conduzisse pelos meandros da sua própria clivagem.

Clivagem é o termo. Aquiles vive entre os dois pólos, cabeça e sexo. O coração continua fechado e, portanto, sem poder fazer ligações emocionalmente inteligentes. Em nenhum momento entendeu que ele talvez gostasse mesmo dela. Que talvez valesse a pena viver aquele amor e aprimorá-lo herculeamente. Que talvez seja isso a perfeição. Um encontro entre dois seres cheios de particularidades e cumplicidades fortes, em processo contínuo de evolução. Um encontro entre dois seres que, na ausência um do outro, se apercebem da durabilidade dos sentimentos e da presença forte de ambos, que impregna todo o espaço à volta. Em nenhum momento ele percebeu que para se ter o amor perfeito não se pode abandonar o barco e continuar a ser o menino mimado à espera da tal mulher mãe. Em nenhum momento ele percebeu que a perfeição é imperfeita e que é por isso que existimos. Para curar os nossos calcanhares de Aquiles e nos transformarmos em homens e mulheres livres e, ao mesmo tempo, simples e serenos em relação à Vida. Ele infelizmente ainda não percebeu que a infância nunca mais volta e que essa mãe incondicional também não existe dessa maneira. Que ele é homem e é responsável por transcender a sua história e crescer. E que só existem mães que fazem o melhor que sabem e se arriscam a educar. Que umas são mais bem sucedidas do que outras e que todas elas tiveram mãe. Ele não entende que a perfeição é ser-se humano e crescer continuamente, com os olhos postos no horizonte divinamente perfeito da nossa imaginação. Que ser perfeito é ser-se humano e misturar-se paritária e humildemente com todos os seres que erram, sem paternalismo. É ser-se humano, imperfeito e nobre, feio e bonito, forte e vulnerável, com prazer e dor. Sempre em movimento! Imperfeito! Com os olhos postos no horizonte divino da nossa imaginação!

Não interessa o fim da história. Apenas o episódio. Afrodite saiu do jogo da ambivalência e nunca mais regressou a ele. Aquiles terá que viver ainda muitas desilusões e equívocos semelhantes, repetindo, repetindo, repetindo … até um dia … ou… sempre…

Aquiles poderia ter decidido ser o Pedro do Poema de Gratidão que escrevi em tempos. Optou antes por continuar a surfar nas ondas do sim, mas não, não, mas sim. É por estes misteriosos motivos que não podemos deixar de acreditar na transformação do Homem. Está-se na fronteira, na ponte ou em alto mar e, de repente, devagar, escolho uma saída mais plena. Ou, então, escolho viver coerentemente dentro dos limites definidos pela ferida artrítica do meu calcanhar, sem ludibriar os outros. Ambas as saídas são transformadoras.

E para os que ficarem no sim, mas não, não, mas sim, não sei o que poderá acontecer. A história deste Aquiles em concreto continua, o mais certo, longe da minha observação e da de Afrodite. Noutros lugares do mundo, a vida continuará a acontecer-lhe e a oferecer-lhe as suas infinitas oportunidades. Quem sabe?

 

Nota 1: estão salvaguardadas todas as regras de sigilo profissional.

Nota 2: o recurso aos nomes de Aquiles e de Afrodite é para simbolizar apenas o tema da vulnerabilidade do personagem masculino e o tema da sexualidade/sensualidade que aquele atribui à mulher da história.

 

CLANDESTINA

2014-08-20 16.04.15

O Encontro deu-se num relance de olhar.

Havia muitas pessoas, ruídos, música, mesa farta e, no entanto, aquele olhar desacelerou o tempo dos futuros amantes.

Tudo aconteceu sob a força incontrolável da fisiologia do instinto.

Nesse dia, fizeram acordos tácitos de ternura. No futuro, numa das despedidas, desfariam esses acordos, esfumando-se estes docemente no espaço. Sem dor. Com lágrimas doces.

Clandestina é uma mulher adulta, madura e responsável. Apeteceu-lhe muito deixar-se ir naquele abraço. E foi.

Há histórias assim, de pele, mas de pele “lá dentro”, sem palavras, feitas de imagens, sensações e momentos. Existem apenas num plano onírico e as palavras proferidas pertencem à linguagem dos amantes, sem antes nem depois.

Alguém um dia sonhará este sonho e o cupido cósmico lançará a sua flecha, trazendo na ponta aguçada o espírito daquele romance.

Tudo o que acontece faz parte do livro histórico da humanidade, dos arquétipos da psique humana.

Clandestina abriu caminho. O tempo encarregar-se-á de fazer germinar a semente de um encontro feliz. Podem passar-se anos. Podem outros tropeçar no sonho acabado de sonhar e, zás. Haverá um antes e um depois.

A maturidade emocional pode transformar um episódio efémero e clandestino num ato de coragem que pode salvar alguém. Pode resgatar o instinto adormecido de uma mulher, ressuscitar os seus sonhos abandonados, fazer funcionar os seus ovários, recuperar o canto profundo da sua alma, torná-la mais bonita, acordá-la, despertá-la de uma dormência psíquica, atirá-la “violentamente” para o trilho verdadeiro da sua vida.

A maturidade emocional permite-nos ser responsáveis pelas nossas vivências, entrar e sair de sítios perigosos, com um tesouro na mão.

Esta história é inspirada na vivência de uma mulher em fim de terapia. Muitas vezes tropeçou em histórias amorosas complicadas, ficando presa, por longos períodos de tempo, a um sofrimento repetido, típico de quem perde a força, o eixo, a autoestima. O fim da sua caminhada terapêutica foi atravessado por um acontecimento inesperado. Estávamos ambas expectantes relativamente ao seu significado. Estaria ela a repetir novamente o script? Por que voltaria ela a escolher uma situação amorosa aparentemente pouco promissora?

Não. Desta vez, seria necessário ser mulher. Deixar de ser a menina despeitada, a Perséfone perdida no mundo subterrâneo de Hades. Seria preciso assumir a sua curiosidade até ao fim e a responsabilidade pelos suas escolhas. Resgatar a força para sair. Não culpar o outro. Não manipular o outro. Entrar, viver, sentir e separar-se. E, por acaso, ter vivido a mais amorosa de todas as histórias, dizendo adeus através de um olhar azul, grato, húmido de tão doce, cheio de marcas de ternura, reconhecimento, nutrição, paixão, proteção, beleza e inocência.

Há histórias assim. Quando tudo parece ter chegado a um certo equilíbrio e bom senso, a vida apresenta mais uma armadilha. A derradeira, a que põe à prova a nossa verdadeira capacidade de largar o que não nos serve!

Não tenho dúvidas de que esta mulher está pronta. Pronta para se amar e continuar, sem o olhar da terapeuta, pela estrada fora da vida.

O verdadeiro amor vem de nós e fica. É próprio. Permanece inabalável nas nossas escolhas. Pode ser sozinho ou acompanhado. Pode ter a forma de uma relação, de um episódio amoroso, de um projeto, de um ato criativo em estado febril, de uma separação, de uma vida solitária na floresta, na companhia cantante da alma. Livre.

Parabéns, Clandestina! Às vezes é necessário recuar ao passado e passar pelas tormentas conhecidas, para sair dele com a graciosidade de uma bailarina, sem chamuscar a autoestima.

Mulheres e homens abençoados pela vida nunca têm caminhos lineares. Têm segredos, deslizes, quedas, desencontros sucessivos. Não obstante, têm em comum um olhar brilhante e curioso, sentido apurado, grande capacidade de amar e proteger, muita resistência e uma certa teimosia. Têm choro fácil e, às vezes, são irascíveis. São fortemente intuitivos e ferozmente leais. Caem e levantam-se inúmeras vezes, levando sempre consigo papel e lápis, para reescrever a história. Nunca ficam iguais. São irreverentes e, ao mesmo tempo, humildes. Preservam a capacidade de sonhar e de aprender.

Parabéns, Clandestina! Foi um privilégio ver-te encontrar o teu Legítimo Caminho.

 

 

VOZ DE MIM

 

_DSC3203_GustavoGoncalvesÉs poema com pele, poros, centros nervosos.

És olhos que vêem, choram e se espantam de alegria.

És boca que beija, grita, sorve e deita fora, coração que acelera e abranda, que dá sinal de vida e comanda a ordem das coisas.

És reflexo do amor que nos une, a mim, a ti, a todos.

És o velho, és também o novo, o prelúdio da verdade, a verdade inteira e mais além.

És o rosto do imprevisível e do instante que passou, és marca nova que fica, se multiplica e se desdobra em múltiplos acordes daquele que sou.

És allegro, molto vivace, piano, pianissimo, largo, dolce, molto dolce!

És a diluição do que não faz falta e um acrescento de mim.

És a improvisação de um corpo vivo, comandado por um coração sensível.

És o acordar de memórias e a expressão da liberdade.

És corpo que respira mais e melhor.

És os pontos nos is, o grito que salva e o amor que cura.

És espaço amplo, dentro da alma das pessoas.

És tão-só o espírito elevado de cada um.

És a mudança de rumo das coisas banais.

És mais.

 

VOICE OF ME

You are text with skin, pores, nerve centres, eyes that see, weep and are cheerfully astonished.

You are the mouth that kisses, screams, sucks and throws away, the heart that accelerates and slows down, that gives a sign of life and commands the order of things.

You are a reflection of the love that unites us, to me, to you, to everybody.

You are the old, and also the young, the prelude to the truth, the whole truth and beyond.

You are the face of the unpredictable and of the moment that passed, you are a new mark that stays, multiplies and unfolds in multiple chords of who I am.

You are allegro, molto vivace, piano, pianissimo, largo, dolce, molto dolce!

You are the dilution of what is not needed and an addition to me.

You are the improvisation of a living body, commanded by a sensitive heart.

You are the awakening of memories and the expression of freedom.

You are body that breathes more and better.

You are the dots in the i’s, the scream that saves and the love that heals.

You are ample space, inside the soul of the people.

You are merely the high spirit of each person.

You are the change in the course of banal things.

You are more.

ESTE ESPAÇO É MEU E ESTE ESPAÇO É TEU!

árvores gémeas

A mitologia, a literatura e as vidas das pessoas estão cheias de enredos baseados no Complexo de Édipo mal resolvido! Alguém quer um espaço que não é o seu e quem de direito não é capaz de gerir amorosa e firmemente a situação. Os papéis ficam trocados, o sentimento de culpa instala-se e acompanha-nos indelevelmente para o resto da vida ou por muitos anos. É preciso que a nossa alma se sinta sufocada, para que possamos questionar a orientação dos nossos desejos e necessidades amorosas.

Este espaço é meu e este espaço é teu!

Quem dera a todos nós que os nossos pais e/ou padrastos tivessem sabido mostrar, com atitudes coerentes e enraizadas, esta verdade tão simples e libertadora! Ter-nos-iam ajudado a sair do triângulo amoroso que teve início aos 3 anos de idade.

Se os progenitores não tiverem esta etapa resolvida, embarcam no desejo da criança, atuando os seus próprios desejos inconscientes e as suas necessidades de amor não satisfeitas. E isso aconteceu mais uma vez!

Era uma vez um menino que tinha uma irmã mais nova. Os pais começaram a dar-se mal por variadas razões. O pai era rígido e a mãe, amorosa com o seu filho querido. O menino rapidamente se transforma no homenzinho da mãe; o pai afasta-se sexualmente da mãe e é exigente com o filho. O tempo passa e o menino, agora adolescente, perde a mãe aos 18 anos. O seu amor morre e, de imediato, assume a responsabilidade pela irmã mais nova. O pai, de certo modo, deixa que isto aconteça porque entretanto já se tinha afastado do seu papel de homem da mãe, partilhando com o filho as responsabilidades que eram suas. Há claramente um confronto entre dois rivais, disputando a guarda de uma menina. O rapaz perdeu a mãe, deixa de poder gozar a fratria e busca amor e proteção, através do papel de pai, que assume perante a irmã, prolongando, sem saber, o seu Complexo de Édipo. Como vemos, o menino cresceu com um padrão de lealdade fora do sítio, aumentando a sua carência afetiva que é compensada pelo poder que detém junto de todos os elementos da família.

O adolescente cresceu e fez-se homem. Responsável, diga-se. A esposa queixa-se do paternalismo do marido e, depois de mil e uma guerras, presenciadas por dois filhos, separam-se. Os filhos são instigados por uma mãe ressentida. Ele sofre por muitas razões que poderia exaustivamente explicar. Mas o que importa dizer é que este homem, amoroso e dedicado aos seus dois filhos (um menino e uma menina), esconde deles as suas namoradas e espera, inconscientemente, que aqueles o nutram e o compensem afetivamente. Ao mesmo tempo, tem que gerir a frustração e os ciúmes das namoradas, a dificuldade de estar inteiro nas relações, a culpa. Aqui está, mais uma vez, a atualização do Complexo de Édipo, agora na relação com os filhos que, da mesma maneira, se veem armadilhados pelo mesmo Complexo, não resolvido. É óbvio que todas as escolhas feitas pelo personagem desta história são mais do que racionalizadas e devidamente fundamentadas, perpetuando a lealdade construída desde os seus três anos de idade!

Dentro deste quadro de dependência afetiva, há sérias dificuldades em dar limites e em determinar os seus próprios limites.

Tudo se agrava quando os filhos começam a dar problemas na adolescência. É preciso dar limites aos abusos de autoridade e o sentimento de culpa interpõe-se e não permite. O poder que sempre teve esvai-se por entre os dedos. É agora a vez dos filhos assumirem o controlo da situação. Nesta história, todos sentem falta de amor, disputando espaços na relação. Ninguém se larga. Ninguém segue a sua vida, ainda que a raiva cresça sufocada pelo medo de perder o único espaço de amor que se conhece…

Este homem busca terapia num momento em que sente uma tremenda solidão, perda de controlo e falta de amor. A sua alma está espartilhada. Está cansado de se sentir dividido entre amores: entre filhos e namoradas, entre estar disponível para satisfazer as necessidades dos outros e satisfazer as suas, de prazer, de descanso, de diversão, etc. O seu corpo de adulto carece de satisfação, de amor maduro e seguro. Mas a dificuldade de separação é imensa: de dizer “não” a dois filhos caprichosos, sempre que é preciso; de dizer “sim, eu sou importante, eu primeiro!”; de questionar toda uma vida e chorar pela perda da mãe, personagem central na sua história.

De mãos dadas, sigo com ele pelo caminho da consciência e das brumas. Devagar.

Vou com ele muito atrás, à procura do seu desejo de amor. Pelo caminho, tropeçamos juntos na sua resistência em deixar ir o que não lhe pertence. Sou testemunha da sua tristeza. Assisto-o na conquista da sua autonomia perdida, da sua alegria de viver…  é bem possível que demos de caras com os sonhos mais recônditos da sua alma, então afundada por tantas responsabilidades e lealdades de outrora.

É preciso que os casais sejam felizes, individuados e identificados com uma sexualidade adulta, para ajudarem a criança a separar o impulso erótico do impulso afetivo e a aprender a estar, um dia, dentro de uma relação amorosa, sem confusão, sem jogos, sem triangulações. E o/a menino/a  seguirá o seu caminho, livre para escolher, diferenciando uns afetos dos outros. Esta é a raiz da integridade. Estar inteiro num afeto, sem confusão, assumindo o espaço que é seu e as responsabilidades inerentes.

As separações são absolutamente necessárias.

Um dia, todos nós deixamos o seio materno. Deixamos o infantário, a escola primária, o liceu, a faculdade, o emprego, várias relações, deixamos para trás a pele fresca e firme da juventude, a energia que em tempos pareceu inesgotável; todos nós perdemos entes queridos e morreremos um dia. É urgente encarar a separação como algo que faz parte da nossa evolução, como uma promessa de prazer maior, de maior fluxo e vibração, de amor maior, de paz maior, como um mergulho no mar profundo e complexo do nosso Self!

Olá! Tenho três anos! Alguém me explica que não posso fazer tudo, que não posso ter tudo, que o pai é da mãe e que a mãe é do pai… apoiam-me amorosamente na frustração que sinto … protegem-me dos perigos … estão vigilantes para que a potência corporal que entretanto conquistei não me atire para um sítio sem chão … abraçam-me os dois quando preciso de afeto … e dizem-me “amamos-te muito”. E aprendo a dizer “este espaço é meu e este espaço é teu”!

Olá! Tenho 45 anos!

Este espaço é meu! Este espaço é teu! Este espaço é nosso!

 

Nota: Alguns dados da história foram alterados para proteger o direito de privacidade do cliente.

 

SIM, VALENTIM!

Apresentação1 Amor é uma ligação vital com uma fonte de vida e de alegria, quer essa fonte seja um indivíduo, um projeto, uma comunidade, a natureza ou o Universo.

A vida flui através de um espetro emocional que nem sempre é prazenteiro e que constitui o ponto de partida da nossa evolução. Não pode haver alegria se não conhecermos profundamente a tristeza; não poderá haver Amor verdadeiro se não formos capazes de nos zangar; não poderemos desenvolver a capacidade de proteção se não conhecermos o medo e o impacto das situações de sobrevivência. Por isso, o trabalho de evolução pessoal é um trabalho sobre a integração dos opostos, que nos aproxima da nossa essência que é, quanto a mim, um “apanhado” criativo da luz e das trevas. É um trabalho em direção ao Amor.

Dado que o Amor também é uma expansão do Self para incluir o mundo, a sua perda é vivenciada como uma ameaça à vida e resulta em contração e retraimento. O anseio por Amor permanece no coração, mas não pode ser realizado enquanto o medo da perda ou da rejeição persistir.

Todos os dias tropeçamos com pessoas com medo de se entregar ao Amor.

Se fomos frustrados ou profundamente feridos na nossa infância, o nosso avanço em direção a um relacionamento amoroso maduro tenderá a ser inseguro. Podemos apaixonar-nos porque o Amor é a nossa linha vital, mas a entrega poderá ser apenas temporária, uma renúncia momentânea do controlo egóico, na nossa contínua luta pela sobrevivência. À mínima contrariedade, tocam os alarmes, iniciando-se o conhecido processo de sabotagem ao Amor maduro. Essa incapacidade de nos entregarmos ao Amor, de coração aberto, jaz na raiz de todos os nossos problemas emocionais.

Maturidade é o estadio da vida em que conhecemos e aceitamos o próprio Self, em que conhecemos os nossos próprios potenciais, medos, fraquezas e manipulações e os aceitamos. Aceitação não é impotência. Significa que se assume a responsabilidade pelo próprio valor e se perde a vergonha das próprias dificuldades ou problemas e que estes servem de ponto de partida para a contínua evolução e aprimoramento, em consciência. Aceitação é uma visão amorosa e responsável de si mesmo.

Conhecer e aceitar o próprio Self é um processo em contínuo movimento evolutivo. A maturidade vai ganhando o brilho mágico que resulta do encontro entre dois seres que se comprometem mutuamente, dentro da aventura de autoconhecimento. E é por isso que o compromisso inclui uma dose de imprevisibilidade! É por isso também que a vida nos pode surpreender e conduzir a vivências extraordinariamente extáticas!

A entrega ao Amor implica a capacidade de partilhar plenamente o próprio Self com o objeto do nosso Amor. Não é uma entrega cega ao outro, mas sim uma entrega responsável às próprias emoções, na relação com o outro! Amor é uma questão de estar aberto. Isto implica estar em contacto com os sentimentos mais profundos e ser capaz de os expressar adequadamente, sem projeções.

O trabalho pessoal em direção ao Amor é um processo de abertura à Vida e esta reflete-se em olhos brilhantes, em sorriso cálido, em modos graciosos e em coração aberto.

Para abrir o coração é preciso abrir as passagens através das quais o sentimento de Amor flui para o mundo… abrir a voz para falar francamente … abrir os olhos para ver … movimentar-se em direção ao outro, com clareza de intenções.

O Amor maduro é um direito de todos aqueles que se entregam apaixonadamente à evolução pessoal e à Vida.

Feliz Valentim!

 

O MUNDO MARAVILHOSO DE ALICE

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Há momentos muito especiais, quando todas as coisas se conjugam sincronisticamente!

Na nossa Floresta, houve magia e muitas sincronicidades! A Alice, no seu mundo maravilhoso, esteve presente a inspirar-nos, a lembrar-nos de como é ser criança, de como é estar no corpo!

Na floresta do mundo dos adultos, o retorno à infância é obrigatório! Temos como missão reconstituir os caminhos do corpo e da psique, que ficaram retidos algures num momento difícil da nossa história.

Na floresta do mundo dos adultos, o retorno à infância é obrigatório! Fazemos tudo para resgatar aquele sorriso, aquela paixão, aquela fé inabalável na vida, aqueles gestos espontâneos e a total vivência do fluxo!

Na floresta do mundo dos adultos, o espírito da criança está sempre presente, como um anjo da guarda, um guia ou um sábio intemporal.

Obrigada, Alice!

POEMA DE GRATIDÃO

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Como seria o mundo se cada um de nós construísse vínculos seguros?

No meu trabalho, tenho o privilégio de conhecer pessoas incríveis que conseguem transformar as suas vidas, partindo de situações de grande fragilidade. Por muito que nós, psicoterapeutas, dominemos a técnica de conduzir as pessoas pelos seus processos de vida, temos que assumir a nossa humildade e aceitar que são elas, as pessoas, que trazem consigo o tesouro, a força, a luz. Estou grata por ter sido conduzida para os braços daqueles que a cada dia me mostram o sentido da vida e me ensinam a humildade.

É muito importante divulgar matérias positivas, histórias de pessoas que transformam alquimicamente o passado e que conseguem cruzar a linha do medo, aprendendo a valorizar o amor partilhado todos os dias.

O amor não é uma abstração inatingível, é real, é uma escolha feita por pessoas que não desistem de crescer, de se transcender a si próprias, de se comprometer com o conhecido e com o desconhecido de si e do outro, numa aventura fascinante de autoconhecimento.

Como seria o mundo se cada um de nós cultivasse relacionamentos saudáveis e felizes, construísse vínculos seguros e tivesse como prioridade a saúde emocional?

Não podemos ignorar o poder que a higiene emocional tem na qualidade de vida das pessoas, das famílias, das instituições, das empresas, da sociedade, do mundo!

É preciso reaprender a olhar, a respirar, a sentir, a fazer escolhas a partir de uma perspetiva elevada. É preciso largar crenças que nos mantêm presos na teia da vitimização e da carência. É preciso ampliar o olhar e colocar no topo da lista das prioridades a capacidade de vinculação. Não tenhamos pudor de considerar que é de amor que o mundo precisa!

O amor tem sido o tema da maior parte das canções e da poesia porque é bem possível que seja a matéria de que o Universo é feito!

Quero partilhar um poema de gratidão.

Pedro faz terapia há alguns anos e, num dado momento do seu processo, sofre um despertar. Sofrer um despertar parece um paradoxo. Mas é assim. Pela perda de algo valioso, chegou a uma compreensão do seu padrão de infelicidade e teve a oportunidade de fazer o luto do menino que já não é.

Vou transformar, em poema, o conteúdo das suas palavras e das lágrimas choradas durante várias sessões. Recordo estes momentos com enorme comoção.

Pedro pode ser cada um de nós que ouse aproveitar a sua oportunidade de ter nascido, de uma forma que faça sentido e que contribua para a construção de uma massa crítica que pode elevar o nível emocional e espiritual da humanidade.
Tenho poucas dúvidas a respeito da responsabilidade que cada um de nós tem na construção da sua realidade pessoal e do mundo que temos.

Poema de gratidão

“Bom dia, meu amor. Tenho estado a dormir profundamente.
Não tenho percebido o quanto tens estado aqui. O quanto és sábia e protetora e como é enorme a tua alegria. Preocupado em manter sempre atualizado o meu passado de menino mal amado e incompreendido, tenho projetado em ti todas as minhas expetativas infantis de que um dia alguém irá satisfazer incondicionalmente todas as minhas necessidades.

Bom dia, meu amor. Perdoa-me por ter andado tanto tempo adormecido e ter negligenciado a soberania das tuas atitudes amorosas. Tu és uma luz e, pacientemente, puseste-te na retaguarda porque sabias que eu não aguentaria o brilho das tuas ações.

Obrigado pelas refeições maravilhosas que preparaste com tanto amor, bom gosto e requinte. Obrigado pelas tuas carícias, pela mulher sensual e feminina com que me brindaste todos os dias. Como é possível eu não ter reparado que, para além do grande ser que és, ainda és a mais linda e sensual das mulheres que algum dia se cruzou no meu caminho!?

Obrigado, meu amor, por te teres zangado comigo e me teres batido com a porta. No dia em que saíste da minha vida, apercebi-me do vazio que é viver sem ti. E que todas as lamúrias que te fiz eram a minha alma infantil a lamentar-se por tudo o que não teve. Perdoa-me. Tu deste-me tudo aquilo que a minha criança não teve. Mas a minha carência é tanta que nada do que me deste chegava. Aproveitei as tuas fraquezas e fragilidades para te demonstrar que eras insuficiente e que eu merecia mais e melhor!

Como é fácil ser vítima! Nada é da nossa responsabilidade! Todos nos devem!
E que tédio é, afinal, a vida desta maneira! O poder resvala devagar por entre os dedos, enquanto envelhecemos e perdemos as melhores oportunidades!

Obrigado, meu amor, por me teres batido com a porta. Esse foi o primeiro dia em que entrei na idade adulta. Ensinaste-me que o tempo não volta atrás e que para termos amor temos que curar as nossas próprias feridas e amar-nos a nós próprios. Só assim se aprende a dar valor a uma companheira como tu.

Hoje, honro cada cicatriz que tenho, dou alta aos meus pais que deram o que tinham e o que sabiam. Hoje, compete-me a mim fazer melhor.

Obrigado, meu amor, por me teres batido com a porta e teres lançado em mim a semente do amor próprio e da gratidão.

Obrigado pela tua solidariedade, pelo teu olhar de mulher atenta, pela alegria que geras à tua volta e pelo prazer que me fizeste sentir!

Perdoa-me por não ter honrado os teus defeitos, as tuas dificuldades, por não te ter dado a proteção que precisavas. Por não ter sido o companheiro responsável que tu mereces.

Obrigado, meu amor, pela lição de força e de coragem que me deste. Por me teres mostrado que amor também é dar limites com a contundência necessária para acabar com a violência psicológica inconsequente! Obrigado pela lição de vida que me deste, ainda que esteja a sofrer, em cada célula do meu corpo, a tua ausência.

Resta-me pensar que, se algum dia vivi este amor, é porque há em mim a centelha brilhante de vida que um dia irá renascer.
Amo-te.”

Nota: o nome do personagem da história é fictício e estão salvaguardadas todas as regras de sigilo profissional.

 

ÚTERO QUENTE. FOGO CRIATIVO

Fogo criativo. Útero quente

Útero quente. Fogo criativo da fecundação. Respiração intensa, em uníssono. Todas as células, juntas numa só. Uma só respiração. Um só coração.

Doce fogo. Labaredas que dançam e criam vida.

Cada ser individual ocupa o espaço da sua existência. Vulnerabilidade total. Todas as possibilidades. O milagre do nascimento.

Devagar, vêm as ondas no corpo. O pulsar é cada vez mais intenso. Assim nasce o ritmo. Batem as ondas, soam os trovões, tudo acontece milagrosamente dentro de um corpo. O empurrão para a vida é inevitável.

Luta titânica para estar de pé. Que beleza! Na entrega e na confiança, a coluna percorre o seu caminho para atingir a verticalidade! O corpo ondula, os olhos brilham. As mãos libertam-se para alcançar mais, muito mais da vida.

Neste processo, o momento de ficar nas próprias pernas e caminhar vem com as marcas de cada uma… Há alguém que, desde muito cedo, se segura sozinha … e vai. Vai velozmente e com determinação, com uma respiração que não chega ao seu fim. Tem que tomar conta. Não há ali ninguém que perceba que ela é ainda muito pequenina e vulnerável. Mesmo assim, ela vai.

Mas é possível renascer! A grande mãe que há dentro de si convida-a a continuar… chama as outras com o seu olhar de alegria e braços que simulam um voo. Dançam todas e brincam. Experimentam a individualidade. Imitam-se. Integram o que aprenderam. Dançam em liberdade. Buscam o encontro. Criam harmonia. Separam-se e caminham nos seus próprios pés.

A vida dá imensas oportunidades para renascer e redescobrir a alegria de caminhar sobre os próprios pés, para criar novos caminhos e para fazer o encontro e a separação, em harmonia. Podemos surpreender-nos!

Se nunca fores para a floresta, nada acontece! E a tua vida não começa!